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segunda-feira, 18 de julho de 2011

Células-tronco, por Dom Aloísio Roque Oppermann



- Causa-me grande alegria verificar o progresso das ciências biológicas. Procuro acompanhar, dentro das minhas ocupações pastorais – que são prioritárias - os avanços mais significativos da biotecnologia. Talvez isso provenha do fato de ter sido professor de biologia durante muitos anos, e contar entre os meus ex-alunos médicos, bio-químicos, odontólogos...

Nos dias atuais está tramitando no Senado Federal, um projeto de lei, na área da Biossegurança que, infelizmente, interfere no campo da ética (PL nº 2401-ª 2003). Considero que ciência e sociedade, juntamente com a legislação e as ciências éticas, devem caminhar sintonizadas entre si. Sei, com toda certeza, que estão envolvidos mais de 50 bilhões de dólares, empatados por empresas que pretendem pôr em ação seus avanços biotecnológicos. Querem, por meio de técnicas de ponta, superar doenças cardíacas, o mal de Alzheimer e de Parkinson, derrames e doenças degenerativas e outros males. Estupendo. Espero que os cientistas prossigam neste caminho. Devemos ir mais longe ainda.

Antes de expor, no entanto, minhas restrições, vamos procurar uma compreensão preliminar. Trata-se de fazer uso das tais “células-tronco”, que podem ser levadas a substituir tecidos humanos com problemas. Tais células podem ser extraídas do cordão umbilical, do fígado, da medula óssea, do pâncreas (segundo descobertas bem recentes). São também chamadas células pluripotenciais, e já tem inúmeras aplicações atuais. Dentro de 5 anos --marque bem, 5 anos-- poderão cobrir todas as necessidades. A ética não abre restrições contra o uso dessas células. Elas podem ser usadas porque não sacrificam nenhuma vida, e favorecem a humanidade.

Mas a par destas, existem as células que provém do embrião humano, que são – pelo menos atualmente – mais eficazes do que as acima descritas. São também chamadas de totipotenciais porque são capazes de se transformarem em qualquer tecido humano, necessitado de alguma intervenção. Seria uma solução vitoriosa e espetacular, ajudando a eliminar defeitos que hoje são fatais para a humanidade. Se não fosse um pequeno detalhe: seu uso supõe o sacrifício do embrião humano. Portanto, tira a vida de uma pessoa humana, que está apenas iniciando a sua existência. A ética não concorda que uma vida seja salva, sacrificando outra. É preciso ter muito discernimento, para não aprovar um procedimento que pode manchar a história humana. Se o fim justifica os meios, abre-se um precedente perigosíssimo, diante do qual não se poderiam fazer restrições ao roubo de criancinhas para fazer uso de seus órgãos.

Gostaria ainda de externar um parecer sobre um outro contencioso dentro desse contexto. É sobre o início da vida humana. Já houve pareceres de que ela só começaria com o nascimento, ou com a idade de seis meses do embrião, ou ainda três semanas após a fecundação, e assim por diante. Mas nos últimos tempos os cientistas concordaram (especialmente com Jerôme Lejeune) que a vida humana começa quando aconteceu a fecundação. Por quê? Nela existe a completa troca de carga genética, entre o óvulo e o espermatozóide, e tudo o que o ser humano vai ser, já fica definido para sempre. Mas agora, diante das pressões que se fazem em cima dos cientistas, dos comunicadores e dos políticos, essa definição recebe nova data: seria só após 12 dias da fecundação. Por quê? É que só depois desse tempo se forma o tecido nervoso. Como dizem: só se pode falar em ser humano depois que ele é capaz de sentir. Não parece uma mudança nas regras do jogo, na hora do pênalti? Esta solução daria campo aberto ao uso dos embriões, sem sentir dor de consciência, e sem suscitar dúvidas.

Dom Aloísio Roque Oppermann scj – Arcebispo de Uberaba, MG

Fonte: zenit.org

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