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quinta-feira, 11 de agosto de 2011

IMPRESSÕES DE UM JOVEM CORAÇÃO


Conteúdo enviado pelo internauta Rodrigo Stankevicz
No coração de um jovem existem milhares de sentimentos, tudo o que lhe faz feliz e, tudo o que lhe assombra. Ele não consegue expressar todos esses sentimentos, por isso, por vezes as lágrimas os traduzem. Outros sentimentos vem à tona através de um sorriso, um olhar carente, uma atitude impensada. Contudo, essas impressões juvenis são fruto de um coração sedento pelo absoluto, todas as atitudes são intencionadas para o bem, conquanto nem todas tenham o resultado final sendo o bem.

sábado, 30 de julho de 2011

"Pobreza de amor é raiz de todo problema humano", diz Bento XVI

Leonardo Meira

Da Redação


''Deus tem os seus planos, também quando nós não conseguimos compreender as suas disposições''
O Papa Bento XVI enviou ao Prepósito Geral da Ordem dos Clérigos Regulares Somascos, padre Franco Moscone, uma mensagem por ocasião do Jubileu dos 500 anos da libertação do cárcere do fundador da Ordem, São Jerônimo Emiliano.

"O exemplo luminoso de São Jerônimo Emiliano, definido pelo Beato João Paulo II 'leigo animador de leigos', ajude a levarmos no coração toda a pobreza da nossa juventude, moral, física, existencial e, antes de tudo, a pobreza de amor, raiz de todo sério problema humano", disse.




segunda-feira, 25 de julho de 2011

Deixar-se amar



"Em um sentido mais profundo, o homem chega a si mesmo não através do que faz, mas através do que recebe. Ele deve esperar pelo dom do amor, e o amor somente pode ser recebido como um dom, como dádiva. Ninguém está em condições de “produzir” o amor por si, sem o outro; deve-se esperar por ele, deixá-lo ser entregue a alguém. Não é possível se tornar plenamente humano de nenhum outro modo, a não ser deixando-se amar. Se o homem não se permite ser presenteado com o dom do amor, ele se destrói."

Bento XVI 


Introdução ao Cristianismo, Ed. Herder, São Paulo, 1970. p.219-220.

domingo, 17 de julho de 2011

As Faces do Amor

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O amor gera a vida; o egoísmo produz a morte. A psicologia mostra hoje com toda clareza que as graves perversões morais tem quase sempre como causa principal uma ´frustração de amor´. Os jovens se encaminham para as drogas, para o sexo vazio, para o alcoolismo e para tantas violências, porque são carentes de amor, ´desnutridos´ de amor. A pior anemia é a do amor. Leva à morte do espírito. Ninguém pode ser feliz se não for amado; se não fizer uma experiência de amor. Se isto é importante na infância e na adolescência, também na vida conjugal isto é verdade.

E esse ´amor conjugal´ começa a ser aprendido e treinado no namoro. Na longa viagem da vida conjugal, que começa no namoro, você precisa levar a bagagem do amor. Você amará de verdade o seu namorado, não só porque ele é simpático, bonito ou porque é um atleta, mas porque você quer o bem dele e quer ajudá´lo a ser ainda melhor, com a sua ajuda. Muitas vezes você quis e procurou uma namorada perfeita, ou um rapaz ideal, mas saiba que isto não existe.

A primeira exigência do amor é aceitar o outro como ele é, com todas as suas qualidades e defeitos. Só assim você poderá ajudá´lo a crescer, amando´o como ele é. Alguém já disse que o amor é mais forte do que a morte, e capaz de remover montanhas. O amor tem uma força misteriosa; quando você ama o outro gratuitamente, sem cobrar nada em troca, você desperta´o para si mesmo, revela´o a si mesmo, dá´lhe ânimo e vida, ´ressuscita´o´. É com a chama de uma vela que você acende outra. É com a doação da sua vida que você faz a vida do outro reviver. Desde o namoro você precisa saber que ´amar não é querer alguém construído, mas construir alguém querido´.

É claro que um casal se aproxima pelo coração, mas cresce pelo amor, que transcende os sentimentos e se enraíza na razão. Todo relacionamento humano só terá sentido se implicar no crescimento dos envolvidos. De modo especial no namoro e no casamento isto é fundamental. A ordem de Deus ao casal é esta: ´crescei ´. Deus não nos dá uma ´ajuda adequada´ para ´curtirmos a vida´ a dois; mas para crescermos a dois. Isto vale desde o namoro. E o que faz crescer é o ´fermento´ do amor. Ninguém melhor do que São Paulo expressou as exigências do verdadeiro amor: ´O amor é paciente, O amor é bondoso. Não tem inveja. O amor não é orgulhoso. Não é arrogante. Nem escandaloso. Não busca os seus próprios interesses, Não se irrita, Não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, Mas se rejubila com a verdade. Tudo desculpa. Tudo crê, Tudo espera, Tudo suporta. O amor jamais acabará´ (1Cor 13, 4´7).

Medite um pouco em cada linha deste hino do amor, e pergunte a você mesmo, se você está vivendo isto no seu namoro. Você é paciente com a namorada ou não, sabe se controlar diante dos defeitos dela? Você é bondoso para com ele, ou será que algumas vezes exige ´vingança´, e quer ir à desforra por causa de algo que ele fez e que você não gostou? Ser bondoso é saber perdoar, é ser compreensivo e tolerante, sem ser conivente com o erro, claro. Será que você tem inveja dele porque ele a supera em certas atividades ? Será que você é um namorado orgulhoso, que acha que só por ser homem já é suficientemente superior a ela? Se você não admite ser ultrapassado pelo outro nas coisas boas, saiba que você não o ama de verdade; pois, quando se ama queremos que o outro seja melhor que nós. Será que você não é arrogante, que se acha superior ao outro, e que quer sempre impor a sua vontade? Até que ponto você permite que a presunção o domine, fazendo´o achar´se ´o bom´ ?

Saiba que a arrogância e a prepotência atravancam o caminho do amor e do crescimento do casal. Será que você é escandalosa, e parte para a chantagem emocional para conseguir aquilo que você não consegue pela força dos argumentos? Saiba que a gritaria é muitas vezes a linguagem dos fracos, que agem assim por falta de razões.

Será que você é egoísta no seu namoro, e ele tem que fazer tudo o que você quer? Aqui está a pedra de tropeço principal para muitos casais. Uma vez que o egoísmo é o oposto do amor, um casal egoísta pode ser comparado a duas bolas de bilhar: só se encontram para se chocarem e se afastarem em sentidos opostos... Será que você é daquelas que vive mau humorada ou que ´derruba o beiço´ por qualquer contrariedade? Será que você é daqueles que se irrita por qualquer coisinha dela que não esteja do seu gosto? Você perdeu a linha porque ele se atrasou quinze minutos? Você deixou o seu namoro azedar porque ele olhou apenas um instante para a outra moça que passou ao lado?

O amor não se irrita, não xinga, não ofende, não grita! O amor não guarda rancor, diz o apóstolo. É claro que haverá no namoro momentos de desencontros. São normais os pequenos desentendimentos. É fruto das diferenças individuais e das circunstâncias da vida. O feio não é brigar, mas não se reconciliar, não saber perdoar, não saber quebrar o silêncio mortal e manter o diálogo. Para evitar as brigas e desentendimentos é preciso saber combinar as coisas. O povo diz que ´aquilo que é combinado não é caro´. Aprendam a combinar sobre o passeio, sobre as atividades que cada um gosta de fazer, etc. ... É preciso dizer aqui que a face mais bela do amor é a do perdão. Você tem o direito de ser perdoada, pois errar é humano; mas tem também o dever de perdoar quando ele errar e pedir perdão.

O gesto mais nobre de Jesus foi o de perdoar os algozes que o crucificavam. Não pode haver futuro para um casal que não sabe se perdoar mutuamente. Esta é a maior reserva de estabilidade para o casal. Outra face bela do amor é a fidelidade. Ser fiel ao outro não quer dizer apenas não ter outro parceiro; é muito mais do que isto, é ser verdadeiro em tudo. É não tapear o outro em nada. É não ser fingido, mascarado ou dissimulador. Se você mente para a sua namorada saiba que está destruindo o amor entre vocês. Nada é mais fatal para o amor! A mentira gera a desconfiança; a desconfiança gera o ciúme; o ciúme gera a briga e a separação. Ser fiel ao outro é saber respeitá´lo, defendê´lo, e não traí´lo de qualquer forma, seja por pensamentos ou palavras. Se você fizer dos seu namoro uma brincadeira de ´esconde´esconde´, você estará brincando de amar, e isto é muito mal. Portanto, quebre toda falsidade, dissimulação e fingimento, porque isto destrói o amor.

A mentira tem pernas curtas, diz o povo; ela logo aparece, e quando isto ocorre deixa o mentiroso desqualificado, e não mais digno de confiança. Desde o namoro é preciso ter em mente que a beleza do amor está exatamente na construção da pessoa amada. É uma missão para gente madura, com grandeza de alma. Construir uma pessoa é educá´la em todos os aspectos, e isso é uma obra do coração. O amor tudo suporta, tudo crê, tudo espera; o amor não passa jamais. Não há o que o amor não possa fazer. Quando não ajudamos o outro a crescer é sinal de que o nosso amor por ele ainda é pequeno. Se o seu namoro não for um exercício constante do amor, ele ficará vazio, monótono, e sem sabor. E como a natureza tem horror ao vácuo, este vazio será preenchido por desentendimentos e brigas.

Namorando se aprende a amar, mas amando se aprende a namorar. Para você meditar: Sete vezes menosprezei a minha alma:

1. Quando a vi disfarçar´se com a humildade para alcançar a grandeza;

2. Quando a vi coxear na presença dos coxos;

3. Quando lhe deram para escolher entre o fácil e o difícil, e escolheu o fácil;

4. Quando cometeu o mal e consolou´se com a idéia de que outros cometem o mal também;

5. Quando aceitou a humilhação por covardia e atribuiu sua paciência à fortaleza;

6. Quando desprezou a lealdade de uma face que não era, na realidade, senão uma de suas próprias máscaras;

7. Quando considerou uma virtude elogiar e glorificar.


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por Felipe de Aquino Professor
http://www.cleofas.com.br

Time is love



 Diz-se por aí que tudo o que, na natureza o homem não tem como reproduzir tende a escassear nos próximos cem anos. A água, o ar respirável, o petróleo, os minerais. Há, porém, algo criado de que raramente se fala e que o homem, há pelo menos meio século afirma já não ter: o tempo. “Estou em uma correria doida! Não tenho mais tempo para nada!”, dizem todos, dos seis aos oitenta anos.
 O tempo, como toda criação, foi estabelecido pelo próprio Deus ao criar dia e noite e colocar um astro para regê-los, como vemos em Gênesis 1. Deus sabia bem que precisaríamos de ritmo para crescer e amadurecer, para trabalhar e descansar, para gerir nossa concupiscência a ser desenfreada pelo pecado, para voltar atrás e arrepender-se dele, para preparar e acolher a salvação. Sem o tempo, esqueceríamos mais facilmente ainda do que nos deveria ser óbvio: somos criaturas e, portanto, limitados, necessitados, frágeis e, devido ao pecado, também fracos.
 Pessoalmente, o mistério do tempo recorre infinitas vezes a meu pensamento e oração, em uma atração irresistível e misteriosamente ligada ao mistério da encarnação. Assim, cada vez que medito no mistério da salvação, dou graças a Deus por ter criado o tempo e o ter colocado a meu serviço. Graças a ele, que me serve, posso arrepender-me, crescer, amadurecer, morrer e viver plenamente em Deus, ingressando, livre da cronologia que para ele criei, no “Coração da Existência, livre pulsar do tempo”, que é o coração de Jesus, segundo Von Baltazar. Em admirável paradoxo, o tempo que me revela Deus dele me priva, e, ao privar-me dele a Ele me conduz, como o leito de um rio que, em suas quedas e planos acaba por revelar-se, enfim, sua própria mão divina a conduzir minha existência à plena vida no coração da Trindade.
Agradeço, então, a Deus por tê-lo criado e colocado a nosso serviço, como, de resto toda a criação. Agrada-me saber que o tempo é criatura. Desta forma, posso empinar o nariz e declarar-lhe que ele é quem me deve servir e não o contrário. Posso, também, soberanamente, ordená-lo para o amor e, assim, embora inexoravelmente conduzida por seu curso, tornar-me livre do seu jugo. Quando me lembro disso, dou uma arrumada geral na vida, reorganizo minhas prioridades, diminuo o nível de culpa por não ter tempo para fazer tudo o que gostaria ou, segundo meu critério, precisaria.
 A questão é: será que precisaria mesmo? Será que não nos falta tempo exatamente porque fazemos mais do que realmente nos cabe? Não nos daria Deus tudo o necessário para sermos felizes, inclusive o tempo? Não seria Ele incoerente se nos desse tudo de que precisamos para viver felizes e nos deixasse faltar algo tão precioso quanto o tempo? Será que é Deus quem exige que façamos mais de uma coisa de cada vez quando ele mesmo criou uma coisa depois da outra, dispôs um dia após o outro e depois dispôs do tempo para descansar?
 No Fórum de 2004 as Edições Shalom vai lançar um livro que acabo de traduzir. Chama-se Liberdade Interior, de Jacques Philippe. Desde que o li pela primeira vez esta obra, em novembro de 2003, chamou-me atenção o que lá se diz sobre o tempo. Veja só: Deus criou o dia e a noite, é certo. Mas nós, no afã de cumprir nossa missão de co-cridores, fracionamos o tempo. Dividimo-lo em milênios, séculos, decênios, anos, anos-luz, meses, dias, horas, segundos, frações de segundo. Isso por enquanto, pois nossa busca de exatidão em breve vai subdividi-lo ainda mais.
 Segundo Jacques Philippe, este tempo é “cerebral” e, porque medido por nossos parâmetros e ordenado por nosso egoísmo, sempre nos falta. Em sua visão, existe um outro tempo, o tempo interior, psicológico, o tempo de Deus, aquele dos ritmos profundos da graça em nossas vidas (...) Este tempo é feito de uma sucessão de instantes que se unem uns os outros harmoniosa e pacificamente. Cada um destes instantes e um todo em si mesmo e traz uma plenitude que o preenche e faz com que nada lhe falte e que seja suficiente, porque pleno (...) Neste tempo, de forma especial, Deus habita.
 A estas três noções – o tempo como criatura de Deus e, portanto, submissa a mim; o tempo cerebral, fracionado, que criamos; o tempo interior, no qual Deus habita, soma-se a visão do tempo de Santo Agostinho, que o vê como tesouro precioso do Deus que se une à nossa história e que habita em nossa “memória de amor”.
Acerca do tempo, tem lugar especial a belíssima percepção do teólogo Urs Von Baltazar em seu livro O Coração do Mundo, no qual mostra, com incomparável poesia, que o tempo cronológico foi criado para que Jesus, coração da existência, divino pulsar do tempo, se fizesse homem no tempo favorável e estabelecesse “o tempo que se chama hoje”, isto é, o tempo da graça, a salvação disponível a cada instante em nosso interior. Para ele, tempo e amor estão entrelaçados e tal fato dá sentido ao tempo no qual decorre a vida que, sem perder-se, passa pela morte:
Toda a existência particular de cada um se dissolve, como um curso de vários rios, no único mar da morte e da vida. (...) Ei-la, a significação de nossa vida: reconhecer e provar que nós não somos Deus. Assim, pois, morremos em Deus, porque Deus é a vida eterna. Como poderíamos nós atingi-lo senão pela morte? A morte é para a nossa vida a garantia de que sobreviveremos. A morte é a mesura que faz a nossa vida, é a cerimônia de adoração ante o trono do criador. E, como o íntimo sentir de cada ser se baseia no louvor, na obediência, na veneração que deve ao seu criador, há uma gota de morte em cada momento da existência. Por estarem entrelaçados o tempo e o amor, os seres amam também a morte, e o fato de existirem não se opõe ao seu desaparecimento.
 Deus, que, em Jesus desposou o homem, nele penetrou no tempo para Ele criado, nele habita nosso tempo interior e nele está sempre integralmente disponível a nós, como coração da existência e divino pulsar do tempo que a nós faz disponível o mistério do Amor nosso hóspede interior sempre acessível, sempre presente.
Segundo Jacques Philippe, os santos descobriram este tempo interior no qual o mal tem muito menor chance de penetrar (...) e conseguiram viver nele. Para tanto, é preciso uma grande liberdade, um total despojamento com relação a toda programação e a toda vontade pessoal. É preciso estar pronto para fazer, no segundo seguinte, o contrário do que havíamos previsto, viver em total abandono a Deus, sem inquietação e sem medo, não tendo outra preocupação a não ser a vontade divina e estar plenamente disponível aos acontecimentos e às pessoas.
 Este tempo, na verdade, é gerido pelo amor a Deus acima de todas as coisas e ao outro com o mesmo amor com que Deus nos ama. Habitando a eternidade e sendo presença no tempo interior, Deus está sempre plenamente disponível a nós. Não vive apressado a fazer isso ou aquilo, a correr para socorrer alguém na África, a salvar alguém em um acidente, a receber alguém que acaba de morrer. Neste tempo de amor em que Ele habita, está sempre inteiramente presente e disponível a nós.
 O amor, que tudo vence, vence também o tempo cronológico libertando-o ao transformá-lo em tempo interior, nele descobrindo o pulsar do Coração da Existência. É ele que nos faz acolher o irmão, cada irmão, com nossa mais integral e incondicional presença, fazendo dele, naquele instante, a pessoa mais importante do mundo, dispondo para ele de todo o tempo, dando-lhe toda a nossa atenção, unindo a ele nosso pensamento, nosso coração, nossa alma, nossa vida, nossa história. É esse tempo-amor que, ao invés de dizer a nosso irmão “vai em paz e que Deus te abençoe”, diz “não vais só, vou contigo e que Deus nos abençoe”.
 Jacques Philippe continua: Quando nós vivemos segundo o tempo interior, fazemos a maravilhosa experiência de que nada é fruto do acaso. Quando caminhamos freqüentemente na escuridão e no desconhecido, pressentimos e verificamos que nossa vida se desenrola segundo um ritmo que nos ultrapassa, sobre o qual não temos poder, mas ao qual podemos nos abandonar e encontrarmos a felicidade, pois ele nos leva muito além de nos mesmos. Nele todos os acontecimentos estão dispostos segundo uma sabedoria infinita.
 Por que não acrescentar, parafraseando Baltazar: Nele, Jesus Cristo, Coração da Existência, pulsa como instrumento da vida eterna, usando nosso coração e nosso pobre tempo para nele entrelaçar o amor, e, assim, nele ser, através de nós, amor, uma vez que só o Seu amor existe.
 Para não tocar com meus dedos sujos a limpidez da poesia, entrego a Baltasar a tarefa de resumir e encerrar – ou recomeçar! – estes meus tantos pensamentos embaralhados acerca do tempo:
 Entrega-te, pois, à graça do tempo que é tão longo como a graça. Tu não podes interromper a música a fim de a prender e arrecadar. Deixa-a correr, fugir; de outro modo não a entenderás (... )O que é eterno se sobrepõe ao tempo e é sua colheita e todavia só se realiza a si mesmo no decorrer do tempo. (...) Não amadurecemos, não enriquecemos senão por meio duma ininterrupta renúncia de todos os momentos. (...) Tu não podes armazenar o tempo. Aprende com ele a arte de dissipar. (...) Nele adivinhamos o doce âmago da vida: a oferta de um infatigável amor. Deixa-o correr!(...) Ele é escola de superabundância, escola de magnanimidade, a grande escola de amor.
 Ao mundo que acredita que time is money, proclamemos, com coragem e fé, a verdade: time is love!


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por Maria Emmir Nogueira, Co-fundadora da Comunidade Shalom ,
Comunidade Católica Shalom

sábado, 16 de julho de 2011

Afinal, o que é amar?

‘Amar é...’ Era este o infalível início de uma famosa série de cartões; blusas; lenços; roupa de cama, mesa e banho; roupas íntimas e o que mais se pudesse imaginar, nos anos 70/80. ‘Amar é... ser sempre gentil’; ‘Amar é... servir sempre’, diziam algumas dessas célebres frases que, convenhamos, pelo menos têm algum conteúdo que se refere ao comportamento de quem ama. Fico a imaginar como seriam essas frases se fossem escritas hoje, com toda a carga de pornografia e deformação do amor que os nossos tempos trazem. Naquele tempo, pelo menos, havia ainda algo de pureza, de romantismo, de civilidade, de virtude conectado à idéia de amor...

Mas, afinal, o que é amar? Em meio às deformações do que seja amor que nos atacam por todos os lados, infelizmente nem sempre como balas perdidas, é preciso recorrer à fonte, à Verdade. Jesus nunca deu uma definição verbal de amor. Não o sintetizou em uma frase, nem em um artigo, nem em um livro. Ele foi amor. Viveu o amor. É e será sempre amor. O que fez, então, foi dar-nos uma ordem nova, um mandamento novo, a única ordem explícita que ele chamou de ‘mandamento’: ‘Amai-vos uns aos outros como eu vos amo’ (Jo 15,12). Pois bem! E como é que Jesus nos ama? Bem, para responder, leiamos o Evangelho inteiro, dando maior importância ao coração de Jesus, suas atitudes, suas escolhas, do que aos fatos em si.

O mundo inteiro não poderia, entretanto, conter o que se poderia falar acerca do amor de Jesus. O próprio Senhor, entretanto, nos fala explicitamente ‘onde’ ele contempla o amor: na vida intratrinitária: ‘Eu e o Pai somos um’ (Jo 10,30); ‘Nada faço que não tenha visto o Pai fazer’ (Jo 5,19); ‘O que vos digo, ouvi de meu Pai’ (Jo.....) Alguns santos, como São João da Cruz e Santa Teresa Benedita da Cruz, afirmam que ‘só há um amor’. São João Evangelista afirma que ‘Deus é amor’ (1Jo 4,16) e São Tomás de Aquino ensina que ‘Deus é amor em ato’. O grande ensinamento do amor, portanto, aprende-se contemplando o amor de Deus na Trindade que se faz palpável em Jesus, o Verbo feito carne.

No que os estudiosos conseguem ‘apreender’ do relacionamento intratrinitário que, para nós, permanecerá, sempre, um mistério, vemos que nas três Pessoas há um ininterrupto ‘dar-se inteiramente ao outro’ e, em um mesmo movimento, ‘acolher o outro inteiramente’. Há um contínuo esvaziamento de si no outro e uma contínua acolhida absoluta do outro, de modo a serem um só Deus. Dar-se inteiramente, esvaziar-se inteiramente de si e, em um só movimento de amor, acolher inteiramente o outro (não há como dar-se inteiramente a alguém sem acolhê-lo inteiramente, não é verdade?) é, então, o ‘jeito de amar’ da Trindade. Se queremos amar ‘como Deus ama’, se queremos cumprir o mandamento de Jesus de nos amarmos ‘como ele nos ama’, precisamos contemplar este ‘movimento parado’ da Trindade, esta ‘dança do perfeito amor’ que se faz visível, palpável, inteligível no amor concreto do Verbo por mim e por você.

Jesus fez-se carne. Ao fazer-se carne, ‘desposou a humanidade’ (ver aqui, com Pe. Emílio, qual é o teólogo ou padre da Igreja que diz isso. Ele usou no casamento do Rafael), isto é, esvaziou-se de si (Fl 2,7) e, sem deixar de ser Deus, acolheu a nossa humanidade, com seus limites, necessidades e fraquezas. Aguarda, agora, nosso movimento em sua direção. Aguarda que o acolhamos como Ele nos acolheu, que nos demos a Ele inteiramente, como Ele se deu a nós fazendo-se carne e, por amor, morrendo a morte de cruz em nosso lugar. Fazendo isso, estaremos entrando no compasso desta ‘dança de amor’, estaremos partilhando com a Trindade o único amor realmente digno deste nome, o amor que ‘dá-se todo e acolhe o outro todo’.

‘Para onde vais, Senhor, para que possamos te seguir?’ Filipe perguntou a Jesus em Jo...... Talvez, como Filipe, pudéssemos perguntar: ‘Onde estás, Senhor, para que eu retribua o teu amor, para que eu entre no compasso da ‘dança de amor’ da Trindade? Onde estás para que eu participe desse jeito de amar e me doe todo a ti, não sendo senão em ti? Onde estás para que eu te acolha todo e tu não sejas senão em mim?

A resposta, você sabe, vem por meio de João: ‘Quem diz que ama a Deus a quem não vê e não ama seu irmão a quem vê, é mentiroso’ (Cf. 1Jo 4,20). A Trindade, em Jesus, desposou a humanidade. Vive nela o amor esponsal característico da Trindade, como descrevemos acima. Quando falamos de amor esponsal, não há outro amor, outra esponsalidade a contemplar senão a da Trindade, que se dá e acolhe totalmente, sendo perfeitamente Um, perfeitamente Unidade. Por outro lado, quando falamos de amor esponsal, em especial quem é chamado a ‘amar o não amável’ (RVSh,......), devemos contemplar o mistério completo deste amor intratrinitário, que inclui o Verbo fazer-se carne e entregar-se ao homem, acolhendo-nos inteiramente.

Foi assim que Jesus nos amou. É assim que Ele ordena que nos amemos: como Ele nos ama. Isso significa: entregar-se e acolher o outro inteiramente, especialmente se é ‘não-amável’. Gosto de rezar vendo como Jesus foi capaz de se tornar homem sendo o homem tão diferente dele! Como é que Ele ‘conseguiu’ se unir todo a nós, fazendo-se homem, entregando-se inteiramente a nós, se nós somos exatamente quem mais feriu, rejeitou, renegou a Ele, ao Pai e ao Espírito! Como Ele conseguiu amar o homem, o não-amável, do mesmo ‘jeito’ que Ele ama (dá-se e acolhe) o Pai e o Espírito! Fico admirada de ver que Ele nos amou sempre do mesmo ‘jeito’, com o mesmo ‘amor’: dando-se a nós, os ingratos, os não-amáveis, da mesma forma e com a mesma ‘intensidade’ com que se dá e acolhe o Pai e o Espírito. E, como amando a nós, os pecadores, ingratos, não amáveis, do mesmo ‘jeito’ e com a mesma ‘intensidade’ com que amou o Pai e o Espírito, amou ao próprio Pai e ao Espírito em nossa humanidade e através dela, unindo-nos para sempre à ‘dança de amor’ da Trindade Santa.

Fico, então, pensando em São João da Cruz, que diz que Deus nos quer santificar fazendo-nos um com Ele, não por natureza, mas por participação no amor. Fico, também pensando em Jo 17, quando Jesus pede ao Pai que sejamos um como Eles dois são. E, claro, penso também em você e no quanto Deus quer lhe dar, no quanto Ele deseja ensinar a você e a mim a amar, a nos darmos inteiramente, não somente no que fazemos, mas especialmente no que somos e, especialmente, ao não amável: aquele que nos ameaça, aquele que nos constrange, aquele que nos magoa, aquele que não é como queríamos que fosse, aquele que não é como nós: o diferente.

Sabe, ‘amar é... ser outro Jesus’. Esta é a graça que recebemos no Batismo, a graça e o chamado de sermos ‘outros Cristos’, outros que amem como Cristo nos ama. E Ele nos ama do ‘jeito’ que sabe, do ‘jeito’ que a Trindade ama, pois não há outro amor senão este! Que coisa maravilhosa! Que perspectiva grandiosa! Que resposta altíssima deve ser nossa resposta de amor esponsal, que desposa, como Cristo, a humanidade e, nele, em Cristo, por Cristo e com Cristo, responde ‘sim’ ao amor esponsal da Trindade! É grande demais! É maravilhoso demais! É, por outro lado, doloroso demais! Impossível sem a graça! No entanto, é para este amor que fomos criados! Amar é... é isso!


Maria Emmir Nogueira

Amar sem anular o outro


O autêntico amor cria no outro individualidade
O amor – em seu autêntico significado – é realidade que sempre fabrica vida e liberdade. É um sentimento, uma atitude que constantemente promove o bem e o realizar-se do objeto a que se ama.
O amor não pode ser confundido com um infundado desejo de posse, imbuído do intuito de devorar ou anular a personalidade do outro, transformando-o em um outro eu. Se assim o for, ele se transformará em um ilusório processo de manipulação, que acabará por ocultar toda sorte de egoísmos e carências infantis.
O amor, por definição, promove espaços de respeito e de autenticidade. Ele não manipula nem exige uma representação teatral, mas torna o outro cada vez mais ele mesmo, em um belo processo de acolhida da alteridade (diferença) que o compõe.
Um dos grandes erros que se pode cometer é querer amar alguém a partir apenas das próprias concepções, sem procurar entender como funciona o sistema de crenças – a cabeça – do outro e o que, de fato, lhe tem valor.
As pessoas são diferentes de nós e, assim, precisam ser respeitadas e acolhidas. É fato que por vezes a diferença nos assusta e desafia, contudo, não podemos impedi-la de acontecer, buscando trancafiá-la em um molde que só em nós encontrará o seu perfeito encaixe.
Quem ama não teme, acolhe. Acolhe o diferente que muitas vezes é até melhor que nós… e que por isso mesmo, acaba incomodando.
O outro é um outro, e assim precisa ser assimilado. Ele não tem a obrigação de gostar do que gostamos e de sempre ser o que queremos, para assim nos servir como a um fantoche afetivo, perenemente disposto a preencher nossas ausências e ideais desencontrados.
O autêntico amor cria no outro individualidade e autonomia afetiva, não o deixando eternamente escravo de nosso afeto.
Quem ama ensina o amado a também amar outras coisas além de si, pois acredita que quem foi profundamente amado não precisa ficar trancafiado neste registro afetivo, para disso se recordar.
Todo processo de posse e de excessiva exclusividade pode até ser chamado de amor, mas, no fundo, tem outros nomes, tais como apego e egoísmo.
Um amor que não promove no outro autonomia e capacidade de caminhar – individualmente – precisa ser revisto e purificado. Pois no exercício do amar, a pessoa precisa ser promovida e não absorvida pelo ato de quem ama.
O coração que deseja amar ajuda o outro a se descobrir e a, consequentemente, se assumir, solidificando, dessa forma, a própria personalidade e seu senso de autonomia pessoal.
Quem não se possui – não se compreende e não se tem… – não poderá se ofertar com qualidade, mas será suscetível de tornar-se objeto a ser anulado. Por isso, promovamos em nós mesmos e nos outros este processo de assumir-se/compreender-se, para que assim lancemos as concretas bases de um amor encarnado, que gera vida e que não se contradiz – não anula – em sua real missão e significado.
Diácono Adriano Zandoná