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domingo, 17 de julho de 2011

Verdadeira amizade!





      "Aqueles que amam e respeitam o Senhor encontrarão o amigo fiel" (Cf. Eclo 5, 16). Falar de uma experiência vivida de amizade já não é tão difícil como simplesmente escrever sobre a amizade. Os conceitos quase sempre limitam muito esse mistério, portanto, é necessário vivê-lo para ao menos tentar descrevê-lo. As Sagradas Escrituras nos deixaram ricos testemunhos de amizade, pra não falar d'Aquele que viveu a mais profunda e rica experiência de amizade com os homens, Jesus, o amigo por excelência, o verdadeiro referencial para o amor fraterno (1).

    O Primeiro livro de Samuel, capítulo 18, tem uma das mais belas experiências de amizade das Sagradas Escrituras. Muitos ao longo da história já o atestaram e escreveram sobre essa amizade: trata-se de David e Jônatas (2). Diante deste relato bíblico podemos afirmar que existe uma vocação à amizade. Não só a história da Filosofia Clássica ou a história da Igreja (3) nos evidenciam tal verdade, mas também e, principalmente, o contexto bíblico em que se foi formando o Povo de Deus com o registro de suas experiências. Diz a Tradição Cristã que, nas Sagradas Escrituras, a amizade de David e Jônatas ocupa um lugar privilegiado.

    David e Jônatas eram dois homens de Deus, mas traziam a "marca da imperfeição", do pecado, e os apelos interiores quanto às questões de nobreza. David provinha de uma família humilde, porém, tinha consciência disso e era um homem temente a Deus (4), enquanto Jônatas era filho do Rei Saul que, mesmo sendo descendente de uma das menores tribos de Israel, Deus o havia constituído chefe do seu patrimônio (5). A mão do Senhor estava sobre ele e seu filho Jônatas (6). Interessante é observar que mesmo quando a mão do Senhor não pousar mais sobre Saul, Jônatas demonstrará que sua amizade com David não dependerá de garantias humanas e terá sido assim desprovida de interesses. É muito belo observar essa realidade e dela tirar uma lição de vida para as experiências de amizade nos dias atuais.   

      Jônatas realiza o seu chamado a ser amigo de maneira exemplar: "Assim que David terminou de falar com Saul, Jônatas se apegou a David e começou a amá-lo tanto quanto a Si (...) Então Jônatas fez aliança com David, porque o amava como a si mesmo. Jônatas tirou o manto que vestia e o entregou a Davi, assim como suas vestes, até mesmo sua espada, seu arco e seu cinturão" (I Samuel 18, 1-4).Como vemos, os dois selam uma aliança, "Berit" (7), porque se amavam como a própria alma ou, como diz a Filosofia Clássica, "amor dedicado ao outro que traz como que o meu próprio coração" (8). Interessante ressaltar que a Aliança do "Berit" dava também um caráter jurídico á relação. A Benção que um concedia ao outro fazia com que eles se acolhessem numa relação nova, numa espécie de consangüinidade. Daí a clareza e a riqueza com evidencia isto o livro dos Provérbios quando diz: "existe amigo mais fiel que irmão" (Pv 18, 24).

São esses laços de fidelidade interior ao outro, acompanhados da experiência de que Deus é o autor dos encontros que salvaguardará e confortará a amizade nos momentos de prova, de crise, de silêncio e de purificação (9). A amizade tem suas exigências que são ulterior a uma dedicação de sentimentos, mas chega a necessitar da disposição para dar a vida pelo amigo. Esse dar a vida pelo amigo consiste na capacidade de renúncia dos interesses egoístas, na fidelidade aos seus segredos sem ser condizente com a mentira e o pecado, e sem desistir do amigo quando suas fraquezas parecem ser um empecilho para a relação. O dar a vida é viverem juntos esse tempo de purificação tão necessário para a amizade, libertando-a da escravidão das concupiscências (10). Jônatas exerce para com o seu amigo David exatamente como aqui descrevo. Nele o amor dedicado ao amigo David foi mais forte do que qualquer interesse, inclusive, foi capaz de renunciar aos interesses do seu pai Saul para ser fiel ao amigo. Lembro assim o que disse o filósofo existencialista, Gabriel Marcel: "O homem é livre quando é disponível".

Encontramos na liturgia das horas a expressão desse mistério da renúncia de Jônatas como fruto de quem perscrutou o coração do amigo, viu nele a face de Deus e crer nos desígnios do Senhor acerca do amigo: "Jônatas, jovem de grande nobreza, sem olhar para a coroa régia nem para o futuro reinado fez um pacto com David, igualando assim, pela amizade, o súdito ao senhor (11). Deu preferência a David, mesmo quando este foi expulso por seu pai o rei Saul, tendo de se esconder no deserto, como condenado à morte, destinado à espada. Jônatas então se humilhou para exaltar o amigo perseguido: Tu, são palavras, serás rei e eu serei o segundo depois de ti. Que espelho estupendo de verdadeira amizade! Admirável!" (12). Aristóteles é o filósofo que mais escreveu sobre a amizade humana, inclusive, deu um salto maior na compreensão do mistério da amizade segundo o que pensava o mestre Platão (13). "No amor – pensava o filósofo – o amigo deve ser capaz de chegar até ás últimas conseqüências, a ponto de doar não só os próprios bens, mas também a própria vida pelo amigo". Com toda admiração e respeito ao que pensou Aristóteles, é-nos indispensável ressaltar que a sublimação deste gesto de "amor oblativo" só se toma forma plena em Jesus Cristo. O dar a vida pelos amigos tem, em Jesus, um valor infinitamente superior ao que se pensaram os filósofos de todos os tempos. 

Isso se dá porque, no plano da salvação, o amigo que sacrifica a vida pelo amigo a ponto de amá-lo ao extremo, seja ele pecador ou justo, é o homem-Deus, Jesus Cristo. A decisão de amar livremente é acompanhado e impulsionado pelo desejo de amar, como fruto da ação divina. Quando o amor fica apenas no plano dos sentimentos é um amor superficial que tão rapidamente pode se corromper, ser negociado pelas nossas próprias inclinações e concupiscências. Esse amor se torna ainda infantil, sem estabilidade, impossível de suportar as purificações necessárias. Não há amizade se não há uma participação mútua (reciprocidade), embora o amor de Deus não nos falte quando o ignoramos. No entanto, já não podemos chamá-lo de Pai e de amigo se não correspondemos a esse amor.

O amor de Deus "necessita" da nossa colaboração para que seja em nós "força transformadora, fonte de felicidade e salvação". Só então o meu amor tem força de me impelir ao outro para construir com ele fraternidade. É o amor como dom e como decisão que pode construir comunhão, revelar – segundo Bento XVI – o parentesco até então desconhecido, podendo então reconhecer juntos que somos irmãos. O Santo Padre clareia bem o que estou tentando dizer: "Realidades humanas não existem sem o homem, sem o empenho livre do seu espírito e do seu coração (...). Do mesmo modo como a fraternidade é amor, também é um fato profundamente humano uma parte daquela humanidade de Deus (Tt 3, 4) que aparece em Cristo, para nos fazer verdadeiramente homens, para sermos filhos de Deus" (14). É Cristo o único que pode dar sentido aos atos humanos e aos laços de fraternidade. É contemplando e fazendo a experiência da misericórdia divina ao logo da história da Salvação, que podemos compreender quão grandes é o mistério da fraternidade e da amizade na vida de Jônatas e Davi. A radicalidade do amor e da amizade vivida entre eles foram apenas prefiguração do amor e da amizade com que Cristo nos ensinaria a viver com Ele e com o Pai.


Notas do texto: 

 1 – "A referência para o nosso amor fraterno é o de Jesus Cristo que, tendo amado os seus, amou-os até o fim" (Jo 13, 1). Estatutos da Comunidade Católica Shalom, 48. (Este texto é disponível apenas aos irmãos da Comunidade); Grande parte da riqueza sobre a Caridade Fraterna e amizade humana que tento descrevê-la, tenho refletido nas muitas formações e pregações de Moysés Azevedo e Maria Emmir (Fundadores da Comunidade Católica Shalom);    

2 - O Ofício das Leituras dispõe ricamente do texto: "Fragmento do tratado sobre a amizade espiritual, do Beato Elredo, abade". Verdadeira, perfeita e eterna amizade entre David e Jônatas. O livro "Fio de Ouro" de Maria Emmir e Dra. Sílvia (Edições Shalom), no capítulo sobre a amizade chega a citar a experiência da amizade de David e Jônatas.  

3 – Na História da Filosofia se destaca Aristóteles com a sua célebre obra: "Ética a Nicômaco", e Cícero com seu tratado "Da amizade". Um autor atual, filósofo e professor da EDUSC / Brasil, escreveu um livro no qual ele resume os principais textos da História da Filosofia sobre a amizade. Na História da Igreja se destacam os Escritos de Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino. No entanto, algumas obras que chegaram até nós de autores contemporâneos são ricas e aprofundam o tema, tais como: "Nos caminhos da amizade; Eu te desejo um amigo, Vida Religiosa: da convivência à fraternidade e Ministério da amizade". Uma obra valiosa é ainda a Monografia (Trabalho conclusivo do Curso Superior de Filosofia pelo ITEP – Fortaleza) do Pe. João Wilkes, CCSh: "A amizade em Aristóteles" (Obra não publicada);. 

 4 – Cf. I Samuel 16, 11-13; II Samuel 7, 8.18;
5 – Cf. I Samuel 9, 21; 10, 1;
6 – Cf. I Samuel 14, 45;  

 7 – Aliança: Uma promessa solene feita entre duas pessoas ou do Povo Santo com o Deus de Israel. Compromisso de vida através de um juramento, que pode ser uma fórmula verbal ou através de uma ação simbólica, litúrgica ou religiosa. O Berit é uma aliança acompanhada de sinais, sacrifícios e um juramento solene que selava o pacto com promessas de bênção para quem guardasse a aliança e de maldição para quem a quebrasse (Interpreter´s Dictionary of the Bible);

 8 – Interpretação do Filósofo Aristóteles; Destacamos ainda a célebre frase de Santo Agostinho: "Na amizade temos uma alma em dois corpos" (Confissões, 4,6. Cidade Nova, 10ª Edição, 1989);

9 – Vale a pena conferir o que Maria Emmir e Dra. Sílvia escrevem sobre a amizade e o seu tempo de purificação, no Livro Fio de Ouro (Edições Shalom);

10 – O Papa João Paulo II, na Carta Pastoral  "Novo Millennio Ineunte" fala da espiritualidade de Comunhão que consiste nesse "dar especo para que o outro aconteça". Já o Papa Bento XVI, na Encíclica "Deus Caritas Est", fala exatamente da necessária via de purificação do amor-eros até que ele seja revestido do amor-ágape, amor altruísta, que dar a vida pelo outro. Evidentemente que esse amor-ágape está acima do amor-filia (Amizade, que exige naturalmente a reciprocidade), porque é o amor que faz com que eu ame e acolha até mesmo aqueles que são mais difícies vendo neles a face de Deus;

 11 – " A amizade é uma experiência sublime, por isso ela é destinada a cada homem, não importando a raça, cultura, idade, sexo, condição social e religião" (Carta do amigo Pe. Joel de Jesus). É bem verdade que ela une pobres e ricos e nivela as diferenças sem ofuscá-las ou destruí-las;

12 – Ofício das Leituras. Fragmento do tratado sobre a amizade do Beato Elredo, abade;

13 – "Para Platão – baseado em Empédocles – é a natureza e não o divino que torna os homens amigos. Nesse sentido chega a afirmar na "Obra Liside" que todas as coisas são amigas entre si. Pensava ainda que é o "Eros" com sua força espiritual de amor que dá à "filia" uma forma transparente e sublime, e faz com que o Eros obtenha o seu fim. Para Platão a amizade é uma etapa intermediária para se conseguir a perfeição da divina contemplação, logo, a amizade não é um bem em si mesmo, mas somente enquanto ajuda o homem a conseguir um tal objetivo: a amizade possui um valor orgânico e instrumental. Na maneira de pensar do Filósofo Aristóteles – vivendo num outro contexto histórico e político – a amizade se torna um problema ético. A "filia" com Aristóteles entra a fazer parte de um mundo ético. Para Aristóteles a amizade é uma virtude ou nos conduz a ela; além do mais ela é necessária para a vida. De fato ninguém escolheria viver sem amigos, mesmo se tivesse todos os outros bens"  (Carta do amigo, Pe. Joel de Jesus); O Cristianismo eleva o conceito de amizade para além de simplesmente "uma virtude". Em Cristo a amizade tem caráter de dom, vocação, comunhão como fruto da amizade que Cristo viveu com o Pai, tornando-se agora o referencial para o amor humano. A própria história da Salvação é a fonte onde vemos o processo do conceito da amizade amadurecer e chegar à plenitude em Jesus. 

14 – Joseph Ratzinger. Dogma e Anúncio, p. 203, Loyola, 2007;


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por Antonio Marcos , Missionário na Comunidade de Vida Shalom ,
Comunidade Católica Shalom

sábado, 16 de julho de 2011

A dificuldade da reaproximação


Aquele que não errou que atire a primeira pedra
Ninguém gostaria de viver tendo apenas uma pessoa como amiga, pois, sabemos que quanto maior o nosso círculo de amizades, tanto maiores serão as oportunidades de aprendizado a partir da vivência com cada um delas. Às vezes, preferiríamos viver numa ilha, isolados de tudo e de todos, especialmente, quando experimentamos as asperezas dos desentendimentos, comuns e pertinentes, em nossas amizades.
Quem se abre aos relacionamentos deverá estar sempre disposto a resgatar a saúde do convívio, mesmo quando inúmeras situações indiquem, como válvula de escape, a facilidade da fuga.
Em todos os nossos compromissos não viveremos apenas as alegrias das festas e o calor dos abraços saudosos daqueles que nos amam e consideram a nossa presença importante, mas também, as dificuldades. Ainda que houvesse muitos momentos de júbilo em nossas convivências e confraternizações, seguramente, haverá, também, momentos em que preferiríamos romper com a amizade e fugir do mapa.
É verdade que somente nos desentendemos com aqueles que realmente convivemos e, de maneira especial, quando as coisas não vêm ao encontro das nossas cômodas intenções. Em certas ocasiões, surge ainda o desejo de pegar um dos nossos amigos pelo pescoço, chacoalhá-lo e jogá-lo contra a parede. Certamente, tal vontade teria de ser controlada, já que esses sentimentos tendem a desaparecer com a mesma velocidade com que emergiram no calor dos ânimos exaltados.
Tal como as ondas do mar roubam as areias sob os nossos pés, as desavenças, impaciências, irritações, invejas solapam os alicerces das nossas amizades. Penso não existir coisa mais descabida numa relação pessoal que o ato de "dar um gelo" ou, como alguns preferem dizer, "matar fulano no coração", isto é, esquecê-lo.
Pelos motivos acima apontados, muitas vezes, ferimos os sentimentos daqueles com quem convivemos; talvez, na mesma intensidade de uma agressão física.
Ignorar, mudar de calçada ou desconsiderar a presença de alguém, que antes fazia parte de nosso círculo de amizade, faz com que retrocedamos ao tamanho das picuinhas dos seres mais ínfimos que podemos imaginar. Seríamos injustos se comparássemos tais atitudes ao comportamento infantil; pois na pureza peculiar de crianças sabemos que logo após seus acessos de raiva, instantaneamente voltam à amizade sem nenhum ressentimento ou mágoa.
Para nós adultos, reviver a aproximação com alguém que tenha nos ferido, não é uma atitude fácil. Ninguém é superior o bastante para estar livre dos erros e deslizes contra a harmonia de suas amizades. Podemos ser vítimas, também, de nossos próprios acessos, que refletidos em atos potencializados pela ira, descontentamento ou ciúme, tenham decepcionado um amigo com nossas grosserias ou indiferenças.
O restabelecimento desses abalos em nossas relações, ainda que não seja fácil, poderá ser possível quando tomarmos a iniciativa da reaproximação, por exemplo, a partir das atividades ou coisas que eram vividas em comum.
"Aquele que não errou que atire a primeira pedra..." Assim, nos colocando na mesma condição – sujeito aos mesmos erros – justificaremos a atitude do destrato sofrido, não como sendo um comportamento próprio do nosso amigo, mas como resultado de uma faceta ainda desconhecida dentro do nosso convívio que precisará ser trabalhada.
Deus abençoe o seu esforço,

(artigo extraído do livro: Relações sadias, laços duradouros)

Dado Moura
www.dadomoura.com