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domingo, 17 de julho de 2011

O sofrimento das pessoas não amadas

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Dom Orlando Brandes
Arcebispo de Londrina

      A pessoa não amada sofre muito. O sentimento de rejeição é um sentimento destrutivo e diabólico. Não é possível viver sem amor. Paga-se um preço muito alto com carências, desequilíbrios, ciúmes, invejas, compensações, doenças e todo tipo de protesto. Vamos refletir sobre alguns sofrimentos de quem não se sente amado.

1. A pessoa não amada, é agressiva. Sabemos que a pessoa agressiva quer chamar atenção, buscando ser valorizada, elogiada, reconhecida como pessoa. Agressividade é um jeito infeliz de querer ser amado. São muitas as formas de agressão, desde o grito ou o silêncio amarrado, a indiferença até ao desprezo da vida através de drogas, álcool, doenças de todo tipo.
Como é importante amar e ser amado. Deus nos amou primeiro, nos ama sem medidas e nada afasta seu amor por nós. Ele tem ciúmes de nós. Carrega nossos fardos. Confia em nós mesmo quando erramos. Deus não se cansa de amar. Quem descobre o amor de Deus vai saltar de alegria e mudar de vida.
2. A pessoa não amada é possessiva. Quer apossar-se de pessoas e coisas. É escrava dos apegos, ciúmes e dependências. Passa por muita decepção. Tem a mania de dominação e manipulação dos outros. Sofre a fome de atenção, de amizade, de comunicação. Vive numa prisão afetiva e num ateísmo afetivo porque não acredita e não aceita que é amável. Sente-se culpada por não saber amar.
Podemos vencer a possessividade com a auto-estima, a descoberta do nosso lado de luz, dos nossos dons. Existimos porque somos amados, ou seja, porque Deus nos quis, nos desejou: “Eu sou um desejo eterno de Deus que hoje existe”. Minha existência é uma “existência amada” por Deus” (Sta. Catarina de Sena). Estamos envolvidos no amor de Deus. É preciso descobrí-lo e sintonizá-lo. Aceitar que somos aceitos, crer que somos amados, é o caminho da libertação.
3. A pessoa não amada é depressiva. Curte o vazio, o peso da vida sem sentido. Facilmente cai no negativismo, na tristeza, ansiedade e angústia. Focaliza o lado negativo. Eis o desgosto, o desinteresse, a apatia, a baixa-estima. Vêm os stress, o cansaço e depreciação.
Estas pessoas se recuperam com nossa compaixão, paciência e compreensão. Precisam de nossa amizade. Quando descobrem que Deus sofre com elas para tirá-las do sofrimento, saem de si e encontram o gosto e alegria de viver. Pequenos gestos para elas têm alto preço e aceitação
4. A pessoa não amada é insegura. Por não se auto-valorizar, é vitima do medo, das criticas, dos julgamentos. A insegurança bloqueia toda criatividade e leva à timidez. Para elas é difícil pegar o ônibus, ir numa festa, assumir alguma responsabilidade. Atrofiam suas potencialidades. São indecisas, “morrem na sala de espera”. Os outros são endeusados, invejados, enaltecidos demais. Tudo isso contribui para que a “dor existencial” seja ainda mais cruel.
Três amores salvam estas pessoas: o amor de si através das qualidades e vitórias, a amizade sincera e a descoberta que Deus as quer bem: “Eu te amo como tu és”, eis o que elas devem ouvir. Só os amados, mudam. A aceitação de si é um ato de humildade e de verdade. Deus é força dos fracos. É oleiro que refaz o vaso. É o amante que nunca vai embora.
5. A pessoa não amada é desconfiada. Sem confiança é difícil a comunicação. A desconfiança bloqueia a fé em si, nos outros e em Deus. Tudo é perigo, ameaça, perseguição, azar, fatalidade. Os outros são vistos como exploradores, indignos, maliciosos, interesseiros. A desconfiança obriga ao afastamento, à solidão, ao isolamento. A pessoa desconfiada vive sempre armada.
Estas pessoas serão ajudadas pela gratidão e atitude de louvor por tanto bem, vitórias e sucessos que experimentaram, graças à ajuda dos outros. O outro é irmão, sem o qual não posso existir. Tudo na vida é interação, interdependência. Amar é crer nos outros.
6. A pessoa não amada é doentia. Doença aqui é compensação, necessidade de afeto, procura de carinho. Um toque, um abraço, uma saudação, um elogio fazem milagres na vida destas pessoas. Confiar-lhes responsabilidades é um bom remédio, como também todo acolhimento, atenção, apreciação. Sentem-se amadas pelos pequenos gestos de simpatia, gratidão, reconhecimento. Nada melhor para elas que amizade verdadeira. Eis a terapia: o amor constrói, cura, recria e tudo sofre, tudo crê, tudo espera.


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por
Arquidiocese de Londrina/PR

sábado, 16 de julho de 2011

Uma falsa imagem de Deus


Somos muito devotos, mas não sabemos pedir
Estamos tão habituados com as doenças físicas ou psíquicas que não pensamos que um dia tudo isso pode mudar.
Vocês já ouviram falar no cego de Jericó? Ele começa a ouvir o barulho da multidão e escuta as pessoas comentarem: “É Jesus!”. Provavelmente ele tenha dito a si mesmo “Por que não comigo!? Eu estou tão acostumado a ser uma pessoa doente e as outras pessoas também pensam que eu nasci para ser doente”. Então ele começa a gritar: “Jesus, Filho de Davi! Tende piedade de mim!”. A multidão pensa que para ele não havia nada que pudesse ser feito e fica presa a esse pensamento, sem esperança, por isso quer impedi-lo até de de gritar.
A multidão em volta de nós pode estar sem esperança, mas temos esperança de que aqueles que sofrem no meio de nós vão receber a luz ou a cura. E por que não hoje? Essa é uma pergunta que cada um de nós precisa fazer a si mesmo neste dia. É aí que toda a graça vai poder atingir-nos ou não.Talvez não sejamos cegos, mas tenhamos outros problemas. Ou então somos cegos com relação ao coração, pois ainda não sabemos nos abrir à presença d’Aquele que tudo pode.
Nós realmente não sabemos pedir as coisas para Deus. Somos muito devotos, mas, muitas vezes, não pedimos da maneira certa.
É preciso dizer que o Senhor gostaria de curar com muito mais frequência do que vemos, mas não sabemos pedir, porque ainda temos uma falsa imagem de Deus e isso nos impede de nos abrirmos, verdadeiramente, à presença de Nosso Senhor Jesus Cristo. É como se houvesse um "véu" em volta do nosso coração, que impede, de certa maneira, a abertura de nosso coração à presença do Senhor. E, dessa forma, esse "véu" nos impede de nos colocarmos na presença de Deus. Todos nós temos esse "véu"; uns mais outros menos, de aspectos variados. Pode-se dizer que essa falsa imagem de Deus é uma espécie de representação errada que temos do Senhor em nosso interior.
Muitos cristãos gostariam que Jesus falasse ao coração deles, achando que dessa forma seria mais fácil de se sentirem amados por Cristo; contudo, quando Deus quer dizer que nos ama significa simplesmente que Ele quer se dar a nós inteiramente. Ele não quer nos dar somente isso ou aquilo que pedimos, mas quer dar a Si próprio.
Quando o Todo-poderoso fala do Seu amor por nós, não escutamos nada, mas nós acolhemos a Sua presença em nós. Se nós buscarmos tentar escutar alguma coisa, ficaremos distraídos. É um amor muito especial que faz com que Ele se dê a nós. Se Jesus diz a você: "Eu te amo" significa que Ele vai viver em você, Ele não vem lhe dar pequenas consolações, Ele vem viver em você. Claro que nós não merecemos isso, mas o Senhor quis fazer com que merecêssemos essa graça, por isso Ele ressuscitou para que nós pudéssemos acolhê-Lo em nossa vida.
O nosso coração é um lugar secreto dentro de nós, profundo e inviolável. Quando acolhemos a presença de Jesus em nós, podemos, então, pedir tudo porque estamos pedindo com o Espírito Santo de Nosso Senhor Jesus Cristo. Isso não quer dizer que vamos receber tudo que estamos pedindo, mas receberemos o melhor, porque Deus sabe o que é o melhor para nós.
Há alguns meses eu estava numa cidade da Itália, era um momento da Santa Missa para os doentes. Eu estava na procissão de entrada junto com os padres, e quando eu passava vi uma jovem senhora. Ela tinha paralisia na perna direita em consequência de um acidente de carro que havia acontecido com ela havia um ano. Ela chorava muito e por isso eu parei diante dela e os padres também porque não sabíamos o que fazer e, então, eu lhe perguntei por que chorava. Ela respondeu que chorava porque estava com a perna paralisada e antes ela era uma dançarina profissional, e por causa do acidente ela não poderia nunca mais dançar. E eu perguntei: "E você está pedindo para Deus te curar?" e ela, com raiva nos olhos, me respondeu: "Eu já pedi para Ele muitas vezes e eu continuo paralítica!". Então eu lhe perguntei: "E você está aqui para pedir essa cura de novo?", ela respondeu-me novamente: "Mas Ele não vai me atender...". Diante da resposta dela eu falei: "Talvez você não saiba como pedir". E ela me perguntou, então, qual era maneira correta de pedir as coisas para Deus e eu disse a ela: "Não peça mais com um adulto revoltado. Peça exatamente como uma criança pediria". A Celebração Eucarística começou e no momento do ofertório essa jovem senhora se aproximou do altar sem moletas. Quando o padre levantou o cálice, ela começou a dançar em volta do altar e todos ficaram felizes.
Em alguns minutos, ela aprendeu como pedir com confiança e não mais pedir tendo em mente uma falsa imagem de Deus Pai, como um Deus que não queria saber dela. Por isso, ela se sentiu projetada a ir junto do altar e a dançar para a Glória de Deus e nós assistimos a Glória de Deus!
O Altíssimo não vai decepcioná-lo hoje! Faça como o cego de Jericó. Lance-se em direção ao Senhor. Viva todo esse dia em movimento do seu coração a Jesus, sobretudo, se você tem a impressão de que o Senhor não o ama ou não o ama suficiente, ou não liga para você ou que Ele quer puni-lo. Isso tudo é mentira! Isso é a falsa imagem de Deus e Ele vai libertá-lo para que você possa rezar como uma criança.
Philippe Madre
É médico, casado e membro da Com. Beatititudes