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segunda-feira, 18 de julho de 2011

Desafio do Aborto



- A bioética enfrenta dois problemas candentes: o primeiro diz respeito ao início da vida humana e o segundo ao fim da mesma. Três grandes descobertas marcaram o século XX: a primeira foi a descoberta e exploração do átomo, que levou até a bomba atômica; a segunda o projeto Apolo, que perscrutou os espaços e levou o homem à lua; e a terceira é a genética, que atinge a raiz da vida. Em outras palavras chegou-se ao "infinitamente pequeno", penetrando na composição da matéria; atingiu-se o "infinitamente complexo", desafiando os mistérios da vida.

Com a descoberta dos gens abriu-se novo campo de pesquisa para a biologia. Mas já não se trata apenas de estudo. Começa-se a mexer no cerne da vida. Verdadeira manipulação. Somos capazes de criar novas espécies, bem como prevenir, por antecipação, doenças que se manifestariam apenas após muitos anos.

O campo dos biólogos de profissão é relativamente pequeno. Mas basta um para por de sobressalto a humanidade. Citemos apenas a título de exemplo a clonagem. Há, contudo, um setor em que a mentalidade científica, de intervenção na natureza, se popularizou. É o plano da transmissão da vida humana. Cada mulher se põe o problema da gravidez. Muitas apelam para o "sexo seguro", que a evite. Outras, não tendo conseguido êxito no primeiro caso, recorrem a métodos que lhe permitam desvencilhar-se dela.

O número de abortos, de acordo com dados fornecidos por diversas fontes, principalmente pelos defensores desta prática, é assustador. Milhões por ano...

É óbvio que a primeira interessada no aborto é a própria pessoa grávida. Se ela não quiser, ninguém a obrigará a abortar. E se alguém se atrevesse a fazê-lo contra sua vontade, seria severamente castigado.

Pergunta-se agora: por que tantas mulheres optam pelo aborto? Elas sabem que correm riscos de saúde; sabem que têm a rejeição de grande parte da sociedade; sabem que podem ser punidas, com processo crime; sabem que pecam gravemente perante Deus, candidatando-se ao inferno; sabem que a Igreja Católica não só reprova sua atitude, como também as excomunga, juntamente com todos os seus colaboradores neste ato funesto; sabem que está matando uma criatura inocente; sabem que para o resto da vida carregarão um peso de consciência; sabem que estão erradas... e contudo provocam o aborto! Deve haver uma razão muito forte e diria irresistível para tamanha ousadia. Ou será que todas estas mulheres e todos os demais que as auxiliam nesta tarefa, são monstros? Ou será que não sabem nada disso?

Colocamo-nos aqui diante de paralelismo: o suicídio. O aborto pode ser-lhe comparado. Apesar da resistência natural , apesar do instinto de auto-conservação, apesar do peso do pecado, há gente que se suicida, ou que o tenta, sem êxito. Que e quem falhou para isso acontecer? Hoje se apontam, além dos problemas morais, também desequilíbrios psicológicos e até fatores orgânicos. Muitos dos que tentaram voltaram a tentar. O problema está na sua escala de valores. Vale aqui o provérbio chinês de que o cachorro, preso em sua casinha, se incomoda com as pulgas; ao passo que, quando está caçando, nem se lembra que existem pulgas. O ser humano, que não tiver elevados ideais e não cultivar grandes valores se recusa a viver, porque se incomoda com ninharias.

É certo que alguém, para recorrer ao aborto, deve ser premido por impulsos muito fortes, que desafiam todas as razões. Vai sacrificar um ser que está sendo gerado por ele e que , por isso, deveria, naturalmente, ser muito amado. Como e por que não amá-lo, se é fruto do próprio ventre? Por que eliminá-lo, se é sangue do próprio sangue e vida da própria vida? Por que abortá-lo, se seu percurso natural para o nascimento é muito mais realizador, ou pelo menos, muito menos prejudicial e arriscado? Por que temer um ser indefeso, cuja única culpa, e que nem é dele, é existir?

O desafio do aborto se coloca em diversos níveis. O primeiro é o desafio de quem provoca o aborto: da gestante e de seus cúmplices diretos. Trata-se de uma atitude horrorosa, que jamais pode ter justificativa. Para convencer de sua gravidade, a Igreja declara que quem pratica tal ato não mais pertence ao seu grêmio. Está excomungado.

O segundo desafio é a penalização civil dos abortistas. Sabe-se que aborto é crime e, conseqüentemente, deveria ser punido judicialmente. Na verdade, dificilmente alguém é punido porque provocou aborto, a não ser se a operação clandestina deu resultados negativos. Mas então o problema é charlatanismo. O castigo será imposto por exercício ilegal da medicina. E aqui seria necessário haver mais vigilância. Há muito abuso, com graves danos para a saúde tanto pessoal como pública.

Mas se não se pune o crime do aborto, não seria melhor "despenalizá-lo" de uma vez, de modo oficial? Para que serviria esta despenalização? Não, certamente, para evitar a punição a quem pratica o aborto, porque esta não existe. Seria portanto para promover o aborto em escala mais ampla, declarando-o permitido, como se nele nada houvesse de mal. Para oficializar o aborto?

O terceiro desafio é impor à sociedade o custeio da prática do aborto, pelo menos em certos casos. Podemos discutir quais casos. Mas o ato de fazer com que as entidades públicas sejam obrigadas a realizar, "gratuitamente", isto é, com o dinheiro público, abortos, é um atentado contra a própria sociedade. É corresponsabilizá-la pelo crime. Seria como armar melhor os assaltantes para que possam abordar suas vítimas sem correr graves riscos, já que a constatação é de que morre muito assaltante no exercício de sua "profissão".

D. Dadeus Grings
Bispo de São João da Boa Vista, SP

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