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segunda-feira, 18 de julho de 2011

Fé a razão

Fico muito feliz quando dizem que a posição contra o aborto tem fundo religioso.  Compreendo também a dificuldade das pessoas que não cultivam, quem sabe por falta da fé, o temor de Deus, dom do Espírito Santo, de entenderem a dignidade dos preceitos de lei natural, explicitados no decálogo. Gostaria de dizer a essas pessoas que “não matar”, o sétimo mandamento da lei de Deus, significa positivamente proteger a vida.



Penso que também as pessoas sem fé aceitam esse mandamento como fundamento da vida em sociedade. É um bom princípio ético aquele que ordena não fazer aos outros o que não se deseja para si mesmo. Ou na versão positiva: “fazei aos outros o que desejais que vos façam a vós”. As duas formulações estão no evangelho e em códigos de ética de outras religiões. Honra muito a nós cristãos e pessoas religiosas em geral, que assim seja. Ateus também estão de acordo que estes são bons princípios. São, pois, princípios de lei natural, que a razão humana sem grande esforço, é capaz de compreender.

Eu não consegui ainda entender a razão por que há pessoas que julgam ruim o que vem da religião. Com certeza em nome da religião, como também em nome de ideologias políticas, já se cometeu muita injustiça, inclusive o a crucifixão de Jesus. Mas será que Moisés, Buda, Maomé, Jesus Cristo, Francisco de Assis, Ghandi e tantos outros, em nada contribuíram para o bem da humanidade.



O que a religião acrescenta a um preceito de lei natural não se refere ao conteúdo do preceito, mas à motivação para cumpri-lo. O que deve ser expresso assim: matar o inocente é ofensa grave a Deus. O temor de Deus, diz a Bíblia, é o início da sabedoria. Falta o temor de Deus quando o ser humano, orgulhosamente, pensa poder decidir dentro de uma autonomia absoluta o que é o bem e o mal, sem se dar conta de que existe uma verdade objetiva inscrita pelo Criador na natureza das coisas.



Trata-se de arbitrariedade e prepotência. Como vivemos em uma sociedade pluralista, a busca da verdade, em situações concretas, deve ser obra comum, trabalho em equipe, mas, como nos lembrava o Santo Padre Bento XVI, citando o filósofo Habermas, é necessário cultivar a sensibilidade pela verdade:“julgo significativo o fato de que Habermas fale da sensibilidade pela verdade como de um elemento necessário no processo de argumentação política, voltando assim a inserir o conceito de verdade no debate filosófico e político”.

Esta sensibilidade, para não se subjugar aos interesses individuais ou de grupos, exige uma boa dose de humildade: a consciência de que a verdade é maior que os indivíduos, maior que a própria coletividade, maior, enfim, que o ser humano. Aceitar, porém, que a razão humana deve se curvar à verdade é admitir que existe algo maior que a razão humana.



No caso do aborto e do uso de embriões congelados, seus defensores não pretendem colocar em questão um princípio moral. Todos admitem que não se pode matar o inocente ou que não se pode impedir o desenvolvimento de uma vida humana já iniciada. A questão se desloca para a aplicação do princípio. No caso do embrião pode se falar de vida humana?

Esta já não é uma questão filosófica ou ética, esta é uma questão que a ciência deve resolver. Os dados que a ciência oferece nos permitem afirmar que, com a fecundação, está constituída e entra em desenvolvimento, por força própria, uma unidade biológica que, não impedida, será plenamente uma pessoa, consciente e livre. A verdade do desfecho final revela a verdade do início: a vida do embrião é vida humana. Esta é uma posição sensata. Como é sensata e profundamente respeitosa com a vida humana a posição que considera ser um desrespeito á vida congelar embriões. Como o preceito de não matar - proteger a vida humana - não é para nós apenas uma conveniência para que a vida em sociedade seja minimamente possível, mas um preceito inscrito por Deus na própria natureza humana, nós não nos julgamos com o poder de ajeitá-lo às nossas utilidades.



Termino com mais duas citações da conferência, preparada pelo Santo Padre para a Universidade “Sapienza” de Roma: “o perigo do mundo ocidental para falar somente dele é que o homem hoje, precisamente à vista da grandeza do seu saber e do seu poder, desista diante da questão da verdade; significando isto ao mesmo tempo que, no fim de contas, a razão cede face à pressão dos interesses e à atração da utilidade, obrigada a reconhecê-la como critério derradeiro”. “Mas, se a razão ciosa da sua presumida pureza se torna surda à grande mensagem que lhe chega da fé cristã e da sua sabedoria, seca como uma árvore cujas raízes já não chegam às águas que lhes dão vida. Perde a coragem pela verdade; e deste modo não fica maior, mas menor.

Aplicado à nossa cultura européia, isto significa: se ela quiser se construir unicamente com base no círculo das suas próprias argumentações e naquilo que de momento a convence e preocupada com a sua laicidade se separar das raízes de que vive, então não se torna mais razoável nem mais pura, mas desagrega-se e fragmenta-se”
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Saiba, prezado leitor(a) cristão(ã), a razão, quando iluminada pela fé, nada perde, só ganha.


Fonte: CNBB – por Dom Eduardo

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