No decorrer da história da humanidade, não faltou quem pretendesse explicar o que é a religião, atribuindo-lhe um lugar acidental na experiência humana. Só para citar alguns, Freud a considerava como a neurose obsessiva da humanidade; Marx, o ópio do povo e Comte, a mais primitiva de todas as fases do desenvolvimento humano.
A discussão evoluiu a tal ponto que se tentou mesmo eliminar a religião da sociedade. Muitos acreditavam que o avanço do discurso racionalista da modernidade tornaria a religião dispensável; o próprio sistema social ofereceria equivalentes, institucionais ou não, que preencheriam o que outrora era absorvido pela religiosidade. (1)
Nisso se incluem o pensamento sociológico de Durkheim, Engels e Weber. A modernização seria, então, sinônimo de secularização. A religião, considerada como sinônimo de irracionalidade e tradicionalismo, se retrairia diante da racionalização crescente da sociedade. Para Max Weber, a sociedade ocidental passa por um incontido processo de racionalização que, no plano religioso, se traduz em “desencanto do mundo”.
Mas não é que a religião persistiu! E ainda com mais força. Parece que a história se deleita em zombar das previsões científicas. “Quando tudo parecia anunciar os funerais de Deus e o fim da religião, o mundo foi invadido por uma infinidade de novos deuses e demônios, e um novo fervor religioso, que totalmente desconhecíamos, tanto pela sua intensidade quanto pela variedade de suas formas, encheu os espaços do mundo que se proclamava secularizado”. (2)
Os cientistas deviam saber que não tem como retirar a fé do homem. Até aqueles que defenderam a secularização e a racionalidade radical, entregaram-se a outra crença ainda mais intensa: a fé na ciência. Na modernidade, a ciência aparece como a principal referência de verdade: o que é científico tem status de verdadeiro e, portanto, mais consensualmente aceitável. A “fé” na ciência é, às vezes, cega, na medida em que as pessoas se entregam confiantemente a aparatos técnicos, cujos conteúdos não dominam, mas que supõem estar sob o controle de especialistas. Isso acontece, por exemplo, quando alguém se submete a uma cirurgia de qualquer espécie ou quando entra num avião e acredita que ele está em condições de não cair, por causa do suporte técnico científico que lhe afirma isso.
É bem verdade que nisso existe um risco de alienação e até de manipulação de consciências. Para resolver esse problema, uma boa dose de criticidade é suficiente. Mas é preferível correr esses riscos do que reduzir a religiosidade a um ritualismo estéril. Prefiro os exageros de alguns, desde que abram a possibilidade de desvelar ou fazer experimentar o mistério, do que os conceitos predefinidos e estáticos dos que adotam a mesmice como proposta de vida.
Deixar-se tocar na subjetividade faz bem a qualquer um. Que se confesse o mais metódico dos amantes da ciência: no fundo, o mistério atrai. Não são os fatos que determinam a maneira de ser do homem, mas sim os fatos transfigurados.(3) Por isso, ignorando as previsões de vários cientistas a respeito do fim da religião, a sociedade contemporânea viu emergir novo surto de religiosidade.
Aqui é preciso discernir. No meio disso tudo existem aproveitadores e charlatões, além dos que conduzem todo mundo ao erro em sã consciência, ou seja, achando mesmo que está no caminho certo. Mas a despeito deles, é preciso reconhecer que o fenômeno religioso contemporâneo é um sintoma de que subsiste no homem aquele encanto característico de um ser que não vive sem a contemplação do mistério.
E se o homem não vive sem isso, é porque isso lhe é constitutivo. Nele há um lugar para a experiência religiosa. Talvez reservado pelo próprio Criador, que não quis que o homem se desvinculasse do belo e nem tornasse sua vida sem gosto e sem nenhuma certeza a respeito do que está além de si mesmo.
Ronaldo José de Sousa
Consagrado de Vida e Formador Geral da Comunidade Remidos no Senhor
(1) Stefano MARTELLI, A religião na sociedade pós-moderna, p. 59.
(2) Rubem ALVES, O enigma da religião, p. 10.
(3) Cf. Rubem ALVES, O enigma da religião, p. 22.
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