Consumir é uma necessidade; temos as coisas, dispomos de recursos para fazer uso deles, mas é possível usar de forma abusiva os recursos, ou depender deles de forma descontrolada, irracional e até patológica. O consumo [1] pode ser compreendido de forma positiva e sadia. Assim gastar, utilizar, empregar são formas consideradas positivas de consumir. Entretanto, a palavra consumir porta consigo significados negativos, tais como dilapidar, gastar até o fim. No que diz respeito ao uso do dinheiro pode ser compreendido de forma positiva: aplicar dinheiro na compra de artigos de consumo e serviços, comprar, gastar. Tem também uma semântica pejorativa: comprar em demasia e freqüentemente sem necessidade.
O consumismo se tornou uma mentalidade que alimenta e estimula a ótica da produção e do lucro na ênfase dada às necessidades, que mesmo sendo objetivamente inexistentes, passam a ser criadas, no caso das formas distorcidas de entender o consumo. O consumismo é a patologia da sociedade capitalista, se insere no desejo exasperado de possuir e de consumir. O desaparecimento das raízes morais faz do prazer o critério fundamental das suas escolhas. Como se sabe, os bens de consumo foram fabricados para não ter grande durabilidade, exatamente para favorecer uma constante busca de compra, oferecida pela venda dos produtos, mantendo sempre viva as leis de mercado feita pela procura e pela oferta. E a propaganda estimula o consumo, criando necessidades e levando as pessoas a consumir, alimentando a produção e o comércio. Por isso, não se fabricam coisas de longa durabilidade, mas de vida útil bastante curta, exatamente para induzir e até impor às pessoas estes hábitos. Um exemplo disso são os carros. Outrora, eram fabricados para durar muitos anos. Quem não deixa de se impressionar com os fuscas, mesmo que raros, circulando por aí? Velhinhos, mas funcionando. Os atuais, depois de alguns anos, constituem sinônimo certo de despesas. Duram bem, dependendo do uso e dos cuidados de manutenção, mas, no giro de poucos anos se não forem trocados, servem para aumentar os ganhos dos mecânicos e nas lojas de autopeças.
A grande ênfase dada à auto-realização tornou-se uma tendência de tipo mais individualizada que descambou na sua caricatura deformante, a saber, a mentalidade individualista no cultivo do mito da realização pessoal. A experiência se faz valor supremo e a dependência do outro ou do grupo se relativiza ao extremo. Coloca-se em risco a dimensão da comunidade, a ponto de reduzi-la a mera coletividade, individualidades que não interagem, mas estabelecem contatos não significativos, esporádicos e instrumentais: eis como nascem as formas individualistas. O bem do grupo e da sociedade é de tal modo colocado em segundo plano que o indivíduo (com seus interesses e sua felicidade) se torna a única medida, o único referencial para tantas escolhas e decisões importantes.
A super valorização do consumo, certamente estimula a super valorização da produção. O mercado gira em torno de oferecer bens e serviços que venham ao encontro de todas as camadas sociais. Serve-se da propaganda, como a arte de criar necessidades. E, de modo cada vez mais ousado e invasor, os meios de comunicação de massa, especialmente a televisão, vão oferecendo um padrão de realização e de felicidade que está rigorosamente atrelado à ótica da aquisição de bens materiais. As mensagens apresentadas por modelos de pessoas ou de comportamentos definidos como bem sucedidos e ideais, em novelas ou filmes, destacam pessoas bonitas, ricas, aparentemente felizes levam à fuga da realidade e levam as pessoas a construírem suas vidas à luz de esquemas e valores tantas vezes inacessíveis. E tudo isso vai gerando frustração na vida dos mais pobres.
Até mesmo no âmbito religioso, a teologia da prosperidade, a bênção, sempre vem atrelada ao dar dinheiro (e quanto mais dinheiro, mais bênção!) para que a bênção venha sob forma de bons rendimentos financeiros. Mas, tal mentalidade, não poucas vezes vivida com muita ganância por parte de certos líderes religiosos vai bem na contra-mão dos ensinamentos contidos nas páginas do Evangelho, com orientações claras: não se deve viver uma inquietude exagerada com bens materiais pois o Pai cuida de seus filhos [2], onde não se pode servir a Deus e ao dinheiro (podemos nos servir do dinheiro para servir a Deus e não o contrário) e “a raiz de todos os males é o amor ao dinheiro" [4]. O ídolo do ter também quer obter lucro usando Deus, no super-mercado dos bens religiosos que tem mostrado sua impressionante rentabilidade! [3]
[A. HOUAISS et alli, Consumo in Dicionário Houaiss da língua portuguesa, Objetiva, Rio de Janeiro, 2001, p. 815.
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