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segunda-feira, 18 de julho de 2011

Quem sou eu?

Alguém se preocupa comigo?


Sinto uma sensação tão gostosa: um sopro suave, terno, meiguice envolvente e irresistível. Pareço a mim mesmo algo tão pequeno, não insignificante, mas minúsculo e ao mesmo tempo grande. Invade-me a sensação de que posso crescer, crescer, mesmo lentamente e me tornar um ser considerável em tamanho e porte.
Ah, esse sopro, que não sei de onde vem ou como chega até mim, tão delicado e sensível, magnificente e parece me transformar profundamente ou seria me formar intensamente? Pouco importa as palavras. Importa a força que invade e faz de mim uma existência, alimentada e se alimentando de um nutriente doce, invisível e saboroso. Sinto-me inundado por uma luz repleta de nuanças enquanto sorvo vorazmente um néctar invisível, bebida vital e sublime. Onde estará o manancial, a fonte que me sustenta? Parece tão próximo e tão distante, generosa simultaneidade.
Neste instante começo a sentir que me multiplico, sem tensão ou esforço algum. Sou eu em várias outras partes de mim mesmo, como a música sendo composta de notas deleitosas numa harmonia melodiosa e pura. Pouco tempo se passou e me sinto como um pequeno-imenso quebra-cabeças perfeito, sendo montado lentamente. Como será a figura, a imagem final deste mosaico? Quantas perguntas me invadem, pouco entendo, mas sei que existem milhares de respostas.
Do sopro essencial e único que me envolve sinto ainda que me falta algo, uma sensação inexprimível, como a de pássaro sem ninho. Ninho? O que será um ninho? Ah! entendi. É um lugar onde se alojam pequenas criaturas como os passarinhos. Mas eu não sou um passarinho, tenho certeza, mas sinto que me falta uma espécie de ninho. Vou esperar por esta dádiva, um lugarzinho acolhedor onde eu não precise intuir o que sou ou serei, um lugar onde eu possa repousar em segurança. Ali, eu sinto, serei acalentado e amado. Nesse refúgio afável ninguém vai me perguntar o que eu sou, porque ou como sou. Posso sentir que ali serei muito amado. Vou esperar por esse abrigo...
Começo então a sentir certa mudança. Não sinto mais o fluido cálido do princípio, sinto um vazio que me envolve e me entorpece. Agora que me sentia prestes a ser aconchegado, a solidão me envolve brutalmente. O frio cresce e sinto dor, sinto abandono. Precisamente no momento em que eu começava a sentir alegria, a ser feliz... sim felicidade, doce abrigo, sonhos de novos dias, a me multiplicar e tomar feitio. Mas congelaram-me. Aquilo que se tornava agradável cor agora é bruma, um matiz cinza triste e arrasador. A luz não gera mais calor e não mais flui em mim o terno e ardente alimento. O que era movimento se transformou em rigor, o que era brandura tornou-se impiedade . Por quê? É o meu grito. Como resposta escuto somente o eco ressoando nas paredes da dura e imensa geleira que me envolve.
O amanhã sonhado e esperado se desfaz entre as nuvens de um gás desconhecido a me envolver em seu abraço gélido e cruel...
Algo em mim, porém, se faz certeza, aquele delicado sopro, aquela beleza do início, a suavidade, ternura e carinho, a luz refulgente, é o Amor Absoluto, Deus, Sopro Divino. O que em mim se derramou se chama VIDA e eu sou ALGUÉM, uma PESSOA!
Esta é a resposta: sou alguém e existo. Eu existo e há vida em mim!
Qual o meu futuro não sei. Meu universo, antes escancarado e ilimitado agora está fechado. Trancaram-me em lugar seguro, seguro para algo ou alguém, não para mim a quem foi concedido o dom da liberdade. Privaram-me do direito de ser formado e de me tornar criatura inteira, um ser em plenitude. Tornaram nulo o meu direito de sorrir, de amar e ser amado; romperam os liames com o mundo que me esperava. Revogaram, em nome da ciência, de um experimento, a oportunidade de ser gente e hoje fazem de mim um depósito de componentes de reposição, um estoque de peças sobressalentes.
Afinal o homem, em seu papel de demiurgo, pouco se importa comigo um microscópico aglomerado de células denominado embrião. Para a ciência sou coisa viva e sem vida ao mesmo tempo. Em seu nome não sou nada, não sou gente. Daqui por diante vão me fazer um simples espécime, um mero dígito.
- Enfermeira, retire do botijão o número 357Y8 - diz o pesquisador apressado.
É. O mundo não precisa mais de novos Einstein, Platão, Beethoven, Shakespeare, Da Vinci, Ghandi, Agostinho, Tomás de Aquino... nem de mim.
É imoral produzir embriões humanos destinados a serem explorados como material biológico disponível (Congregação para a Doutrina da Fé - Instrução "Donum Vitae" 1,5).
Lício Nepomuceno - Escritor
artigos@cancaonova.com

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