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segunda-feira, 18 de julho de 2011

A vida humana tem valor absoluto

Andréia Gripp
Missionária da Com. Católica Shalom no Rio de Janeiro
É lícito a pesquisa com células-tronco embrionárias? Independente de sua resposta, gostaria de fazer outras: Por que você tem essa opinião? Sabe o que são células-tronco embrionárias? Sabe por que existe tanta polêmica entre a Igreja, a comunidade científica e o Estado em torno desse assunto? Sabe que princípios estão em jogo nessa discussão?
Pois é, antes de emitirmos uma opinião, precisamos entender o assunto. Claro, que podemos dizer: “o magistério da Igreja é contra, então eu sou contra, e basta!” De certo, basta para nós, mas, e para quem vamos evangelizar no trabalho, na escola ou faculdade e na família? De certo uma resposta dessas não vai converter ninguém.
Ou, mais triste ainda, alguém pode dizer: “que bobeira, a Igreja novamente atrasada, a ciência sempre está certa. Já não tem mesmo um monte de embrião congelado? É melhor usá-los para salvar vidas que jogá-los fora.” Que lástima! E o pior que ouvimos muitos irmãos que se dizem cristãos falarem isso.
Esse tipo de resposta é fruto da desinformação e da mente simplista que acha que o problema é somente utilizar ou não os embriões congelados. Como se tudo fosse apenas uma questão de aprovar ou não uma lei. Só que o assunto vai além, muito além disso.
Se fosse apenas uma questão de leis, estaria havendo tanto debate? Deveríamos, no mínimo, estar desconfiados: “Ora, porque tanta gente inteligente está mobilizada em torno desse assunto? PHDs em Teologia, Filosofia, Genética, em Moral e em Direito, todo mundo parou para estudar e debater o problema. E alguns de nós acha que pode resolver tudo com um simples plebiscito... É, portanto, muito mais do que uma simples questão de “Eu acho...”
Não tenho a menor capacidade de explicitar aqui a problemática científica. Como consagrada, estudante de Teologia na PUC-Rio quero partilhar as reflexões que temos feito em torno do assunto e mesmo assim não dá para aprofundar em tão poucas linhas o tema, que envolve a concepção de hominização, debatida desde Aristóteles. O que conseguirei, na verdade, é apenas levantar questões acerca do que está em jogo em tudo isso, que acredito ser o entendimento sobre o que é o ser humano e o valor da sua vida na sociedade.
Uma sociedade sem Deus
Toda a discussão que temos assistido hoje na mídia nos leva a olhar criticamente e profundamente a sociedade em que vivemos. Na palavra que o Papa Bento XVI dirigiu aos participantes da Assembléia Plenária do Conselho Pontifício para a Cultura, no dia 8 de março deste ano, ele afirmou: “A secularização invade todos os aspectos da vida cotidiana e cria o desenvolvimento de uma mentalidade onde Deus está ausente, em parte ou totalmente, da existência da consciência humana”.
Alertando todos os fiéis para esse perigo, ele continuou: “Esta secularização não é apenas uma ameaça exterior para os crentes, porque ela também se manifesta, há algum tempo, dentro da própria Igreja. Desnaturaliza, do interior e em profundidade, a fé cristã e, em conseqüência, o estilo de vida e o comportamento cotidiano dos crentes”.
O Pontífice denunciou que “a ‘morte de Deus’ anunciada nos decênios passados por muitos intelectuais abriu passagem para um estéril culto do indivíduo”. A esse culto do indivíduo, segundo o Papa, não estão imunes os crentes: a mentalidade hedonista e consumista favorece (entre o Povo de Deus) uma tendência para a superficialidade e o egocentrismo, prejudicando a vida eclesiástica. Para ele, a cultura atual da imagem impõe modelos contraditórios e, praticamente, a negação de Deus. Na sociedade em que o indivíduo é auto-suficiente, “não há mais necessidade de Deus, de pensar Nele ou voltar a Ele”.
Então, você também já se perguntou o que é essa tal secularização?
Vou tentar explicar da forma mais simples possível, copiando o sociólogo Peter Berger: por secularização entendemos o processo pelo qual setores da sociedade e da cultura são separados das instituições religiosas. Ou melhor, e mais simples ainda: é a separação da Igreja e do Estado. “Na história ocidental moderna, a secularização se manifesta na retirada das Igrejas cristãs de áreas que antes estavam sob o seu controle ou influência”, afirma Berguer no seu livro “O Dossel Sagrado”.
Mas a secularização, enquanto fenômeno social, não tem só o aspecto socioestrutural. Ela afeta a totalidade da vida cultural de uma sociedade. Podemos facilmente constatar isso “no declínio dos conteúdos religiosos nas artes, na filosofia, na literatura e, sobretudo, na ascensão da ciência, como uma perspectiva autônoma e inteiramente ‘secular’ do mundo”.
Além disso, a secularização também tem um lado subjetivo. Assim como há uma secularização da sociedade e da cultura, também há uma secularização da consciência. Isto significa que o Ocidente moderno tem produzido um número crescente de indivíduos que encaram o mundo e suas próprias vidas independentes e totalmente à margem da experiência religiosa . “Em outras palavras, a radical transcendência de Deus defronta-se com um universo de radical imanência, ‘fechado’ ao sagrado. Religiosamente falando, o mundo se torna muito solitário, na verdade” .
Um mundo que não é mais o de sempre
Vivemos num mundo que se renova a cada dia, à velocidade da alta tecnologia. O mundo religioso, cristão, que era parte das nossas seguranças e das nossas conquistas históricas, tradicionais, culturais, está se desfazendo aos nossos olhos.
O que fazer? “Reagir!”, nos conclama o Papa Bento XVI. Como? “Com um renovado ardor missionário”, já nos apontava João Paulo II.
Mas o novo ardor missionário não pode ser apenas voluntarismo, tem que ser firmado na experiência do Espírito Santo e, com Ele, na busca de um entendimento da realidade atual. Afinal, paralelo à essa realidade da secularização, e podemos dizer como reação à ela, estamos assistindo ao crescimento desenfreado de “espiritualidades” das mais variadas. Aldo Natale Terrin, outro sociólogo que estuda profundamente a religiosidade dos tempos contemporâneos, alerta para essa outra mudança radical dos nossos dias: “Hoje o efêmero da moda, o do particular e o do experimental aliaram-se e passaram a dominar, com nossa grande contrariedade, também naquele mundo que deveria levar os sinais do ‘eterno’, do ‘imutável’, da verdade imortal. O presente, portanto, tornou-se ainda mais frágil: é somente um ponto no tempo e na história, um ponto sem ancoragem até do ponto de vista religioso” .
E tudo isso influi na discussão sobe as céluas-tronco embionárias. Logo, não se trata de uma simples questão científica ou legal. É também filosófica, sociológica e sobretudo, teológica. Por isso, é infundável dizer que a Igreja tem que ficar de fora desse debate. Ela já está toda inserida nele, desde a sua origem.
Como citado anteriormente, Bento XVI disse, na Assembléia Plenária do Conselho Pontifício para a Cultura, que é preciso “reagir” diante dessa situação, porque os altos valores da existência, que dão sentido à vida, correm riscos. Entre esses valores destacou a dignidade da pessoa, sua liberdade, igualdade entre todos os homens, sentido da vida, da morte “e o que se espera após a conclusão da existência terrena”.
Mudança de paradigmas
Outra coisa a ser ressaltada: ao afirmar que a vida não começa na concepção, algumas comunidades científicas (e é bom tem isso em mente: não há unanimidade entre os cientistas a respeito dessa questão) demonstram que estão adotando um novo paradigma.
De forma bem simplista podemos dizer que paradigma é o conteúdo de uma visão de mundo. Assim sendo, um grupo de pessoas agem de acordo com os axiomas de um paradigma ao qual estão unidas, identificadas ou simplesmente em consenso sobre uma maneira de entender, de perceber, de agir, a respeito do mundo.
O filósofo Thomas Kuhn afirmou que uma “comunidade científica é constituída através da aceitação de paradigmas: conquistas científicas universalmente reconhecidas que fornecem um modelo de problemas e soluções aceitáveis durante certo tempo” . Os que partilham de um determinado paradigma aceitam a descrição de mundo que lhes é oferecida sem criticar os fundamentos íntimos de tal descrição. Isto significa que o olhar deles está estruturado de maneira a perceber só uma determinada conjunção de fatos e relações entre esses fatos. Qualquer coisa que não seja coerente com tal descrição passa desapercebida e é vista como elemento marginal ou sem importância. É assim que algumas comunidades científicas trabalham. Elas não estão preocupadas, como a Teologia e a Filosofia, em estudar as conseqüências humanas, sociais ou psicológicas, dessa ou daquela descoberta. Apenas querem por em prática aquilo que consideram ser progresso. Vivem o que se chama de cientificismo: somente as ciências experimentais são fontes e paradigmas de todo o conhecimento válido.
Mas como cristãos o nosso paradigma não pode ser apenas científico, ou de uma determinada “linha” da ciência. A nossa visão sobre a vida, e em especial sobre a vida humana, transcende os diversos paradigmas científicos, especialmente o mecanicista (que privilegia a individualidade, a luta, a competição). Diante de uma descoberta, sempre devemos nos perguntar: “que peso isso tem para a eternidade? Até que ponto o homem tem direito de manipular a vida? Posso manipular embriões e congelar vidas só para saciar o meu desejo de ser mãe e depois de saciado esse desejo eliminar todos os filhos que gerei, mas não posso (ou não quero) criar? A que preço eu posso investir na ciência para salvar a minha vida? Tenho o direito de interromper o processo de desenvolvimento de uma outra vida para salvar a minha?”
Valor absoluto
Quem quer aprofundar esse assunto deve ler, especialmente, dois documentos da Igreja: Donum Vitae e Evangelium Vitae. Neles facilmente percebemos que a Igreja se preocupa com o homem integral, em sua totalidade e unidade corporal e espiritual, imagem e semelhança de Deus, digno, desde a sua concepção do amor incondicional de Deus. Um Deus que sacrificou o seu filho para nos salvar. O ser humano não pode ser visto apenas como um material genético e não se reduz a uma máquina produtiva.
Na Donum Vitae, Instrução sobre o respeito à vida humana nascente e a dignidade da procriação, publicada pela Congregação para a Doutrina da Fé, em 1987, a Igreja afirma que, do ponto de vista antropológico, há que se respeitar a dignidade da pessoa humana, que é mais que um apanhado de tecidos. Criado à imagem e semelhança de Deus, o homem é formado de corpo e alma. Por esse motivo, uma intervenção no corpo humano não atinge apenas tecidos, mas a própria pessoa. A vida de todo ser humano deve ser respeitada de modo absoluto porque o homem é a unica criatura sobre a Terra que Deus quis por si mesma.
Estaria a Igreja “atrasada” ao defender essa verdade? Ou será que não estamos voltando ao tempo da barbárie, onde a vida humana não tinha valor intrínseco e, por isso, poderia ser eliminada se assim desejassem os poderosos deste mundo? Não estaremos ingressando numa “barbárie científica”?
A Igreja defende o respeito ao embrião desde o primeiro instante da sua existência por se tratar de uma pessoa humana. Os embriões obtidos “in vitro” também são seres humanos sujeitos de direito, afirma a Congregação para a Doutrina da Fé, na Donum Vitae, ressaltando ser imoral considerar embriões humanos "material biológico" disponível para pesquisas.
Termino com uma frase retirada da Encíclica Evangelium Vitae (n. 2): "O homem é chamado a uma plenitude de vida, que ultrapassa largamente o das dimensões da sua existência terrena, porque consiste na partilha da própria vida de Deus".


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por
Revista Shalom Maná - Ed. Shalom

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