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segunda-feira, 18 de julho de 2011

Do domínio da fecundidade à recusa de dar à luz

Jo Croissant
É compreensível que se busque limitar a própria fecundidade, numa sociedade onde nada favorece a vida de uma grande família ou até de uma família pequena. É bom saber assumir uma paternidade e uma maternidade responsáveis, tendo o número de filhos proporcional à capacidade de assumi-los. O conhecimento do corpo da mulher, de seus ritmos, de seus períodos de fecundidade, permite limitar o número dos nascimentos para haver equilíbrio na vida de cada um. Infelizmente, este desejo legítimo pode se transformar em desejo egoísta: o interesse da criança não está em primeiro lugar, mas o egoísmo do homem e da mulher. Parece quererem tomar o lugar de Deus, decidindo sobre a vida e a morte e pretendendo ser os donos de seu destino.

Chega-se desta forma a aberrações tais que nos espantamos de ninguém mais se escandalizar com elas.

Uma de minhas amigas que trabalha no CLER (Centro de Pesquisa sobre o amor e a família. Empresa de informação e de aconselhamento conjugal e familiar reconhecido de utilidade pública, com sede em Paris) me contava como, em sua pequena cidade, uma jovem fez uma fecundação “in vitro”, que conseguiu após várias tentativas de implantação de embrião. Como a data de nascimento da criança não lhe convinha, ela abortou, deixando para mais tarde uma nova tentativa de ter um filho. O próprio médico ficou indignado. Refletiu ele sobre o fundamento moral de tais práticas? Não sei. Fundamental é a atitude interior que temos com relação a essas questões. Nós as abordamos com suficiente humildade, num desejo verdadeiro de buscar a Vontade de Deus em nossa vida e também com bastante generosidade?

O essencial é ficar sempre receptivo aos dons de Deus. A mulher desabrocha se fica disponível em seu coração ao parto ao qual Deus a destine. A esterilidade não é negativa, mas, como se lê na Bíblia, é como uma preparação para um parto de exceção.

Nunca vi uma criança que não tenha sido uma bênção. No início, um filho que chega sem ser previsto transtorna completamente nossos planos e nos deixa desanimados. Entretanto, é sempre um dom de Deus, e se é recebido como tal, une a família e em torno dele todo mundo se reencontra. Expulsa cada um de seu egoísmo, reconcilia pai e mãe, reúne irmãos e irmãs.

Deus é Pai de toda criança, ele não a abandonará. Os pais podem confiar nele e abandonar-se à sua providência. É verdade que, atualmente, é preciso ser herói para criar uma família numerosa. Muitas de minhas amigas foram agredidas pelo Corpo Médico, quando esperavam um quarto filho, e se houvesse a menor possibilidade de um eventual problema, imediatamente propunham o aborto. Não compreendiam que elas quisessem ter mais um filho. Graças a Deus, todas elas têm tido bebês sadios e nem sonhavam com a alegria que esse nascimento lhes daria.

Não foi certamente por acaso que Deus disse à mulher: “Teu desejo te levará ao teu marido e ele te dominará” (Gn 3,16), pois naturalmente é a mulher que arrisca tornar-se dominadora, justamente por causa de seu poder sobre a criança que pôs no mundo. Esta tendência insidiosa mais profunda é um desvio do amor materno que, de oblativo, torna-se possessivo.

Para escapar à onipotência do homem, a mulher não viu outra solução senão imitá-lo, sem perceber que assim renegava sua feminilidade. Na maternidade consistia sua principal desvantagem; é impossível trabalhar como um homem quando se espera um filho.

Meditemos nas conseqüências humanas e espirituais desta atitude. As mulheres recusam-se a dar a vida. Não estão dispostas a se sacrificar para que as crianças se tornem homens e mulheres completos, e não seres “feridos”, fartos de coisas materiais e, entretanto, carentes do essencial: de uma mãe que os ame a ponto de dar-lhes a vida.

Se as mulheres não querem mais dar sua vida por aqueles que elas amam, quem transmitirá “a vida”? Não há maternidade sem sacrifício, sem dom de si.

Dar a vida, ou seja, seu tempo, suas forças, no cotidiano, é verdadeiramente um sacrifício e atinge freqüentemente o heroísmo.

Quando se fala em maternidade, não se trata somente do fato de ter filhos, mas dessa capacidade que a mulher tem de dar vida, na entrega total de si mesma, seja celibatária, consagrada ou casada ou impossibilitada de ter seus próprios filhos. Cada mulher tem um corpo de mãe, uma inteligência de mãe, um coração de mãe e sua maternidade é chamada a se expandir e tornar-se uma maternidade universal. É preciso encontrar o sentido do sacrifício, reconciliar-se com todas as palavras que suscitaram tantas alegrias, mas que recuperam realidades espirituais maravilhosas. De fato, a superioridade do homem sobre o animal reside na sua capacidade de sacrifício por amor e não por dever ou necessidade.

Deus chamou cada homem para participar de sua obra criadora, de acordo com sua vocação. Chamou a mulher para ser mãe, em todas as relações que ela mantém com a criação, e ser mãe é dar vida. Deus precisou da mulher para transmitir sua própria vida, como tem necessidade do homem para delegar sua paternidade.

Muitas mulheres rejeitaram sua identidade de mãe por comodismo e por todas as renúncias que a maternidade supõe. Não existe hoje palavra mais estranha à nossa sensibilidade que a palavra sacrifício. Se alguém a pronuncia, suspeita-se que esteja tomado de um delírio místico e lhe aconselham um psiquiatra. Não estou brincando: aconteceu a várias de minhas amigas, que passavam por momentos de provação e eram pessoas muito equilibradas. Como a linguagem da fé não passa, de repente elas podem ser tomadas por pessoas esclarecidas.

Quem ama está disposto a tudo oferecer pela felicidade de seu amado, até o dom de sua própria vida. Aí, aliás, é que se reconhece o amor verdadeiro.
Trecho de: Croissant, Jo. A mulher sacerdotal; ou o sacerdócio do coração. Aparecida-SP: Santuário, 1995, pp. 99-102.


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por
Escola de Formação Shalom

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